UCCLA lança reflexão sobre a Cultura em tempos de Pandemia

UCCLA lança reflexão sobre a Cultura em tempos de Pandemia

Numa altura em que todos estamos vulneráveis e com esperança de novos e bons dias, a UCCLA lança o desafio aos escritores de Língua Oficial Portuguesa para refletirem sobre a “Cultura em tempos de Pandemia”. Podem nos enviar textos em poesia ou em prosa, até ao dia 25 de junho de 2020, que divulgaremos nas nossas plataformas digitais e em livro. O primeiro a aceitar o desafio foi o escritor cabo-verdiano José Luiz Tavares.
 
O limite de caracteres é de 5.000. Estes deverão ser enviados por email para cultura@uccla.pt e/ou ruilourido@uccla.pt, até ao dia 25 de junho de 2020.
 
 
Texto do Secretário-Geral da UCCLA, Vitor Ramalho:
 
O surto epidémico do COVI19 atinge, de forma inesperada e dramática, toda a Humanidade, envolvendo a adoção de planos de contingência, também adotados por Países de Língua Oficial Portuguesa, que determinam constrangimentos de mobilidade exterior e distanciamento social no interior dos respetivos países. Tem-se revelado como uma crise de saúde pública com graves consequências sociais e económicas. 
A UCCLA não podia deixar de fazer um apelo à reflexão sobre o papel da cultura no combate a esta Pandemia. Parecendo evidente que perante este flagelo, os povos e os países se verão confrontados com novos desafios sociais e políticos, sobre os quais importa refletir e encontrar novas respostas.
Neste novo contexto o papel da Cultura, e em especial dos escritores, é determinante. Assim lançamos o desafio aos escritores de Língua Oficial Portuguesa, que desejem contribuir para essa reflexão, para elaborarem textos, quer em poesia quer em prosa, tendo como limite cerca de 5.000 caracteres. Estes deverão ser enviados por email (cultura@uccla.pt e ruilourido@uccla.pt), durante os próximos dois meses, com termo no dia 25 de junho de 2020.
A UCCLA responsabiliza-se por divulgar os textos, com identificação da autoria e uma breve nota biográfica, nas suas plataformas digitais e em livro (a ser publicado após o tratamento editorial).
 
 
Conheça todos os autores que já aderiram a esta iniciativa:
 
A Pedro Correia    Alda Barros - STP    Alfreda Pinto - Portugal    Amanda Lopes (Brasil)    Amosse Mucavele - Moçambique    Ana Ferreira da Silva - Portugal
A. Pedro Correia (Angola - Portugal) | Alda Barros (São Tomé e Príncipe) | Alfreda Pinto (Portugal) | Amanda Lopes (Brasil) | Amosse Mucavele (Moçambique) | Ana Ferreira da Silva (Portugal)
 
António Carlos Secchin     António Lisboa Carvalho de Miranda - Brasil    Any Delgado - Cabo Verde    Fernando Costa - Portugal    Germano Almeida    Hélder Simbad (Angola)
António Carlos Secchin (Brasil) | António Carvalho de Miranda (Brasil) | Any Delgado (Cabo Verde) | Fernando Costa (Portugal) | Germano Almeida (Cabo Verde) | Hélder Simbad (Angola)
 
Joao Nuno Azambuja    John Bella    Jorge Castro    Jose Hopffer Almada    Jose Luis Mendonca    José Luiz Tavares
João Nuno Azambuja (Portugal) | John Bella (Angola) | Jorge Castro (Portugal) | José Hopffer Almada (Cabo Verde) | José Luís Mendonça (Angola) | José Luiz Tavares (Cabo Verde)
 
Jose Nascimento    José Pinto    Katia Casimiro    Lidia Jorge    Luisa Fresta    Madalena Mira
José Nascimento (Brasil) | José Pinto (Portugal) | Kátia Casimiro (Guiné-Bissau) | Lídia Jorge (Portugal) | Luísa Fresta (Angola e Portugal) | Madalena Mira (Portugal)
 
Marciano Gualberto Nascimento    Olinda Beja    Ozias Filho    Regina Correia    Valentino Viegas    Vasco Pinto Leite-PT
Marciano Nascimento Júnior (Brasil) | Olinda Beja (São Tomé e Príncipe) | Ozias Filho (Brasil) | Regina Correia (Portugal - Angola) | Valentino Viegas (Goa) | Vasco Pinto Leite (Portugal)
 
 
 
 
Texto de A. Pedro Correia (Angola - Portugal):

O DISCURSO

Disporia de três minutos e meio para dizer aquilo, talvez de quatro com o beneplácito do presidente.
Por uma vez, desde que estava na política, ia falar por si, apenas por si, guiado pela sua cabeça, com o coração nas mãos, como os discursos dirigidos ao povo deveriam realmente ser.
E com coragem! Coragem, bravura, espírito de luta, sentido de estado, precisamente o que o momento exigia. O partido? O partido que se lixasse, as regras, a fidelidade, os votos, tudo isso era agora menor, irrelevante face à guerra que se travava. Temos uma longa tradição de homens lúcidos, pensou, a Renascença, o Iluminismo, as Luzes, a Civilização, a Modernidade, a própria cabeça de Maria Antonieta para demonstrar que o mundo não se compadece com meias-tintas.
Isto ia discorrendo o deputado perante o papel em branco, o mesmo em que, à medida que a caneta avançasse, fixaria para a História tamanhas resolução e clarividência. Habitualmente, escrevia as intervenções ao computador, mas agora salvar-se-ia um documento que o seu próprio punho assinaria e a posteridade guardaria.
Haveria que cuidar do estilo. Frases simples que o povo entendesse. Defender-se-ia do kitsch e da pompa pretensiosa em que tantos, por mera vaidade e falta de humildade, caem.
Após os habituais salamaleques, Senhor Presidente, Senhor Primeiro-Ministro, e tudo isso, falaria para os cidadãos. A primeira frase seria, portanto, “Estimado Povo Português”, tudo com maiúsculas.
Estimado? Pensando bem, talvez não fosse acertado. Demasiado distante, formal, pouco amor implícito.
“Amado Povo Português”. Hum, excessivamente próximo, piegas até, para um país como este. Os portugueses, ao contrário de outros, não andam I love you para cá, I love you, para acolá, gostam de gatinhos fofinhos mas rejeitam certas melices.
“Caro Povo Português”. Parecia bem. Valorizava, não embaratecia a gente, era uma fórmula ajustada. Não seria uma abertura extraordinária mas a parte substantiva, o sumo do discurso, viria a seguir. O sumo, a visão do estadista perante a pandemia, a salvação nacional, a humanidade contra a brutalidade da natureza, a força que dissipava o desalento, a recusa do medo, a resposta final perante o desconhecido. Ficaria assim.
A segunda frase? Obviamente “A hora é grave.” Ficava tudo dito e convocava as atenções. Nas entrelinhas, quem entendesse, perceberia que se apelava à acção, à união, à resistência, até. Mas, a hora? A hora, assim dito, poderia confundir-se com sessenta minutos e, sessenta escorreitos minutos raramente são decisivos para a História. Sugeria uma transitoriedade que retiraria ênfase ao propósito. Mas, calma!, era preciso não confundir transitoriedade imediata com derrota definitiva. Havia uma luz ao fundo do túnel, uma vitória por alcançar, uma onda de fundo por levantar. A História não guarda discursos que desdenham a esperança.
“O momento é grave”? Igualmente passageiro, vai-se a ver e psst, já era.
Escolheria entre “situação” e “circunstância”. O povo, não se cansava de o repetir aos colegas de bancada, não é burro e entenderia.
Como se estivesse no hemiciclo, declamou o que escrevera:
Caro Povo Português,
A circunstância é grave.
Nada a apontar, a prédica prometia e estava esclarecido o contexto. O contexto, essa realidade tantas vezes submetida à ideologia e aos interesses imediatos, precisamente o que o discurso obliteraria. A seguir, portanto, viria o apelo que os anais registariam. Original. Único. Citável. Apreensível pelas criancinhas nos seus bancos de escola. Sim, porque ninguém negaria que estamos perante um momento único, perdão, uma circunstância única na História. O mundo parara como não havia memória, confinara-se, fechara-se a sete chaves. Liga-se a televisão e escutamos o silêncio continental da China, entram-nos pelos olhos as ruas desertas de Madrid, testemunhamos os corredores entupidos dos hospitais nova-iorquinos, observamos os caixões amontoados em Milão e não há quem aponte uma direcção na continuação da ponta do seu dedo, não vemos um Vasco da Gama afrontar oceanos inóspitos, um Magalhães encontrando a saída num mar de dúvidas. Daí a necessidade de um discurso motivador. Daí a urgência deste discurso. E, por tudo isso, havia que prosseguir.
“Temos de nos unir” parecia perfeito. Não soava como “Temos de caminhar juntos” que apelava ao espírito de manada, “Só temos um caminho” sugeriria memórias maoístas que urgia evitar nesta hora, perdão, circunstância, “Somos uma grande Nação” seria acusado de salazarento e dividiria, “Juntos venceremos” estava fora de questão e desuniria. Nada de facilitações, portanto.
Estava o deputado perante um caminho sem saída quando lhe ocorreu que poderia continuar a frase anterior. Um ovo de Colombo que fazia sentido para aqui trazer. Não o ovo, bem entendido, mas Colombo, esse herói de quem, passados quinhentos anos, a História ainda guarda segredos e mistérios penumbrosos.
Assim sendo, teríamos:
Caro Povo Português
A Circunstância é grave, mas temos mil anos de História.
Exactamente! Camões, o próprio, talvez o dissesse com maior lirismo mas nunca com maior propriedade. Além disso, alguém teria de o vincar, os tempos não estão para líricos. Viessem de lá os grandes oradores do passado, os gregos, os troianos, os romanos, os… enfim, viesse quem pudesse contrapôr e rapidamente desistiria.
Bom, resumindo, se a hora é grave, se temos mil anos de História, a próxima frase, para ser forte, pode condensar-se numa palavra. “Sobreviveremos”.
Sobreviveremos? E os mortos? As famílias dos mortos? E a superação? A entreajuda? A solidariedade?
“Vamos resistir”. Boa, bem pensado. E, ainda assim… Resistir é passivo. É estar aqui e esperar que o inimigo tome a iniciativa.
“Vamos vencer”, aí está. Não importa que haja baixas, venha o que vier, alguém sobreviverá, alguém vencerá. Aqui estão duas palavras que sintetizam tudo, duas palavras que o futuro, por traiçoeiro que seja, jamais desmentirá. A esperança, portanto, a confiança na vitória. E isso dispensaria acrescentos inúteis, meros penachos na alocução. As questões hospitalares, o desemprego, a crise, as falências, os outros deputados que se lhes referissem. Aliás, analisando, esse tipo de referências seria depressa ultrapassado, rapidamente se veria datado e atirado para o esquecimento.
Aqui chegado, tanto havido cogitado e sopesado, nenhuma outra palavra mancharia a sua declaração. O essencial, o mais profundo, o imarcescível brilhava agora no papel, limpo, claro, sem necessidade sequer de riscos ou correcções. Um pensamento elucubrado de cabo a rabo sem que se lhe adivinhassem hesitações. Ou dúvidas. Ou incertezas. Perante isto, não fosse macular o original, assinou, pondo no acto toda a concentração.
E foi assim munido que fez o discurso que a História, em não se distraindo, preservará. Talvez não já, é sabido que a História, a que permanece, colhe olhando a partir do futuro. Levantou-se, ajeitou a gravata, apertou o botão do casaco e procurou não exagerar na entoação, não soasse a falsete. Havia algo de perverso nestes discursos de estado, o valor exacto das palavras, a densidade das ideias, o estilo, tudo com peso e medida.
Caro Povo Português,
A Circunstância é grave, mas temos mil anos de História.
Vamos vencer.
Ufa, não lhe tremera a voz, não titubeara. Não se ouviram aplausos mas os colegas estariam a digerir a profundidade da declaração e da oposição não se esperaria admiração que ultrapassasse o tacticismo. Sentava-se gozando o triunfo quando o presidente o interpelou:
– Informo-o, senhor deputado, de que ainda dispõe de três minutos e cinco segundos se pretender utilizar o seu tempo de forma útil.


* O autor não segue o Acordo Ortográfico de 1990.


A Pedro Correia

 

Reflexao sobre a pandemia

 
 
Texto de Alda Barros (São Tomé e Príncipe):

E SEM ME DAR CONTA…

E sem me dar conta, o mundo parou
as ruas ficaram desertas e os sorrisos hibernados
escondemo-nos uns dos outros
de alma despida confinados na esperança
e nas canções de embalar perdi-me nas andanças.

E lá se foi a alegria pelas ruas abandonadas
de carros parados perante rostos incrédulos
adultos e crianças chorando por desprazer
atrelados à janela estamos em tempos de lazer
ao luar, há gente lavando as mãos, sem saber o que fazer.

Amargurados pela agonia do silêncio
inquietos pela dor do confinamento
andamos todos em abraços fictícios
quantos idosos contrariados deixados à deriva
na idade para morrer aventam os imprudentes
haverá julgamentos no forte e no firmamento.
 
Acabaram-se as caminhadas lado a lado
juntos estamos desassossegados e sozinhos
fugindo do Covid-19, cambaleando sobre ninhos
passos incertos em largos sorrisos perdidos por aí
no despropósito das ausências das despedidas.

E sem me dar conta,
o mundo parou na nossa presença
e não nos abraçamos olhando para a lua
embalados na rotina forçada pelo Covid-19
que a todos impôs uma surda melancolia
fugindo da rua às custas de uma simples gritaria.

Sem que me desse conta marquei pontos 
para embrulhar as quarentenas vividas em sonhos
muitos deles serão deixados nos passeios
se na calçada encontrar um mendigo alheio
sonâmbulo de máscara de cores diversas
encostado a um canto pedindo pão e água.

Do pão matará a fome e o Covid-19
e da água lavará os olhos, as mãos e os ouvidos
sedentos que baste, as mesmas mãos estendidas à multidão
um suspiro ofegante rompendo a madrugada
contra o meu fôlego intermitente
assobiando de desânimo por uma mente inocente.

A mente que guia as minhas alegrias
e impede que se note que o mundo parou
perdeu o comando e as fronteiras do sossego
pelo Covid-19 que nos impôs a sua presença
rondando matreira invadindo o silêncio
deixado para trás, amarrado a um lenço.

 

Alda Barros - STP

 

 
Reflexão sobre a pandemia
 
 
Texto de Alfreda Pinto (Portugal):

QUE CULPA TENHO?

Amanheceria na correria citadina
Compraria um jornal na tabacaria da esquina
Recordo-me de um dia normal
Café quente e um pastel
Sem pensar em álcool gel
Tubo, cama, ventilação
Volto à realidade
Não me pares coração!

Que culpa tenho?

Se por um momento não lembrei
Como um vírus apanhei…
Terá sido nas compras, no elevador, no autocarro?
Foi ao tocar no dinheiro ou na maçaneta?
Eu sei lá…
Ele entrou em casa, afetando a minha família
Eles aguentaram, mas eu não
Já estou como os antigos,
A pensar em superstição
Em divinos castigos
Ou numa mera maldição.

Que culpa tenho?

Ar puro da montanha
Contrasta com oxigénio hospitalar
Dificuldade em encher os meus pulmões
Via respiratória afetada
Demasiado fraco
Sobram-me recordações.
Sofre a minha árvore brônquica
Tanto quanto ou mais do que sofreram as florestas
Sem árvores, sem animais.
Já estou como os antigos,
Peço apenas por saúde numa espécie de prece.

Que culpa tenho?

Respiro mecânica ventilação
Entre paredes de concreto num hospital
Mas ainda passeio na imaginação
Entre as flores do meu quintal.
Peço que o meu sopro de vida ainda não acabe.
O invisível entrou em mim, entrou na minha casa
Na cidade também e tudo mudou.
Lembrando-me do quão frágil sou,
Fragilmente forte, parte da natureza.
Aquela que visivelmente descuidei descansa
Enquanto eu anseio por uma recuperação ou cura
Que me permita reabraçá-la.

Que culpa tenho?

Não me julgues, não me vejas diferente
Sou tão humano como tu.
Desejo que isto nem te afete
Que permaneças tranquilo no teu lar.
Enquanto isso as minhas células lutam
mas sonho que logo, logo…
Estaremos juntos nas ruas a celebrar.

 

Alfreda Pinto-Portugal

 

Reflexão em tempos de pandemia

 

Texto de Amanda Lopes (Brasil):


DE REPENTE

De repente o dia amanheceu com pressa, mas não a habitual pressa, aquela de todo dia.
Com a pressa urgente da alma, do gozar de bom espírito!
De sentir-se mais que amado, abraçado, importante nas searas do coração.
De sentir os detalhes sutis, antes nunca tão apercebidos como agora, provocando saudade!
Saudade se universalizou! Todo mundo agora sente. Todo mundo dela é um pouco carente.
Todo mundo entende o que a distância provoca, do que a presença verdadeiramente é capaz!
De repente, a privação do ir e vir.
Alguns dias parecem anos e de repente significam mais.
A rotina é devidamente colocada num posto importante.
É bandeira hasteada com mais respeito e valor.
Há quem já sofra de outras urgências, daquelas que se encontravam esquecidas.
Quem somos nós quando estamos em companhia de nós mesmos?
Os aplausos já não moram ao lado, os conselhos já não cedem colo ou ombro.
E a presença virtual antes tão corriqueira, largamente comum, agora ganha outros entendimentos, outros tons, outros tônus!
Os diálogos mudos que pairavam sobre as mesas postas...
Os almoços e jantares rodeados pelos celulares, hoje clamam por uma presença menos virtual.
Queremos o toque, o olhar, o cheiro até mesmo do silêncio, mas que provoque barulho!
O isolamento em outros tempos tão desejado por quem queria afastar-se da multidão, hoje parece brincadeira que perdeu a graça.
Um boicote natural da vida que apresenta um belo dia de chuva, de sol, convidativo a correr sem destino, abraçando o mundo todo. E agora, tudo que mais se teme, é abraçar.
Um esbarrão quase parece crime, tamanho medo que avassala.
A espera iguala quem imaginava dominar o mundo.
Nos tira a atenção única do próprio umbigo
A espera arranca os cabrestos, as manias de se perder o tempo sem tempo.
E neste agora, todos nós temos tempo para tudo, até para olhá-lo de frente!
De repente o dia provou-se inteiro.  É preciso ser inteiro!
E os dias caminham enquanto todos esperam...
É hora de voltar-se para dentro para se aperceber melhor o mundo de fora!

 

Amanda Lopes

 

Reflexao sobre a pandemia

 

 

Texto de Amosse Mucavele (Moçambique):

REGISTO DAS SOMBRAS 
(Cinzas sobre Coronavírus)

Ressoa em nós a anatomia da melancolia
Um nome digitado na tosse
Reveste-se de uma gota de luto

Indistinta canção
Toca por detrás do tempo
E nós com a guitarra na mão
Testemunhamos à distância sonoridades de ruínas

Hoje enegrece o encanto fúnebre
Tal como a paisagem deserta de Wuhan
Caindo em nossos olhos
Observando, enfim, a mecânica das trevas
Inflexíveis
As sombras da morte vão mastigando o mundo

Do Destino extinto pela dor ou pelo susto
Brota em nós o oásis
Esta alegoria quente
Descrita na fome da nossa ansiedade
Quem seguirá? Como salvar?

E assim
Relançamos o temor da nossa embriaguez
Cuja ressaca nasce da febre assinatura
Que se acolhe na ternura diária

A sul um coração interdito
Tem na morte muitos nomes
Ausência, dor, esperança ou invisibilidade

E quando
Subtraídos em chamas
Adormecem no meio do caminho
Que emerge do luto anterior

Onde há ausência de um abraço
O silêncio desmancha-se em mil orfandades


Amosse Mucavele-Mocambique

 

Reflexao em tempos de pandemia
 
 
Texto Ana Ferreira da Silva (Portugal):

QUARENTENA

– Bom dia, melro! Estava à tua espera para o pequeno-almoço! Dormiste bem? Ouvi-te cantar de noite!...
      O velho Manuel espalhou umas migalhas de bolacha no parapeito da janela e sentou-se no cadeirão a observar o melro que, de cauda empinada, o olhava de través enquanto debicava a guloseima. De quando a quando, Manuel deitava a mão ao copo de leite morno ou ao pacote de bolacha-maria que aguardavam pacientemente sobre a camilha disfarçada de mesa de refeições, ao lado de uma fotografia gasta de outros e felizes tempos enquadrada numa moldura a fingir talha dourada.
      Sempre lhe agradara o cantar melodioso dos melros e desde criança se habituara a arrebanhar migalhinhas de pão para oferecer aos seus amigos emplumados; agora que se encontrava fechado em casa como um recluso, a companhia dos melros tornara-se o mais precioso dos tesouros.
      Lá fora, a Primavera hesitava: soprava uma aragem fresca, encastelavam-se nuvens no céu pálido, as flores começavam a desabrochar. No jardim onde costumava deixar escoar tardes inteiras a cavaquear com os amigos ou a jogar à bisca, as mesas e os bancos continuavam vazios, envoltos em fitas vermelhas e brancas como se estivessem estragados. As ruas, igualmente desertas, à excepção de um corredor ocasional ou de um desconhecido a passear um cão. Ecoando de longe chegava o som distinto das badaladas da igreja, habitualmente abafado pelo ruído do trânsito e pelas vozes que costumavam encher de vida a cidade. A fonte do lago cantava para os patos adormecidos sobre a relva. Dir-se-ia uma cidade fantasma.
      Manuel suspirou e olhou em redor. À excepção do relógio de pêndulo, cujo tiquetaquear regular continuava a marcar o ritmo da vida, o próprio quarto parecia mergulhado num sono irreal, quase moribundo. Nenhum detalhe de conforto fora descurado pelos filhos: a estante recheada de livros e filmes, a televisão orientada para a cama, meia dúzia de embalagens de pilhas sobressalentes para os vários comandos, a roupa lavada e arrumada nas prateleiras, o telemóvel carregado, a caixinha da medicação organizada, a lista de números de emergência replicada e afixada um pouco por todas as paredes, dinheiro para as encomendas do “super” e do “take-away”. Isolado havia mais de duas semanas no pequeno apartamento de segundo andar sem elevador, Manuel cumpria a quarentena que lhe fora imposta pela própria família com o argumento de que os seus oitenta e dois anos, aliados a uma vaga insuficiência cardíaca e uma bronquitezeca de velho o tornavam um alvo de excelência para o malfadado vírus.
      Os três ou quatro primeiros dias, passara-os ao telemóvel a conversar com a família e a discutir a situação com os amigos da bisca que, tal como ele, permaneciam fechados em casa; com o passar do tempo, contudo, o isolamento começou a pesar e a dar frutos nefastos.
      Eram os dias que não havia meio de passarem; eram as saudades da algazarra e da confusão dos bisnetos que o visitavam tarde sim, tarde não; eram os joelhos que emperravam, a coluna que dava sinal; os suspiros e os lamentos cada vez mais frequentes; era o drama do amigo Henrique, o mais idoso do grupo da bisca, cuja única visita era uma voluntária de máscara e luvas de borracha, e que por tudo e por nada desatava a chorar ao telemóvel, ora porque se esquecia do dia da semana, da hora ou da medicação, ou ainda do nome dos amigos ou de aquecer a comida, ora porque passava a vida a tropeçar nos tapetes que teimava em não enrolar e guardar…
      Manuel e os outros parceiros da bisca combinaram entre si não desamparar o velho Henrique, chegando a estabelecer uma escala de telefonemas ao longo de cada dia. Por vezes era a voluntária quem atendia a chamada, o que constituía um grande alívio para os velhotes, pois sabiam que podiam contar com a ajuda da prestável senhora para organizar um pouco a vida do amigo.
      Certo dia, o telemóvel de Henrique emudeceu. Talvez se tivesse esquecido de pedir à voluntária que o carregasse…
      Ao cabo de dois dias de silêncio, os amigos, desesperados, ligaram para os hospitais, para a polícia… Nada! Que fazer, se Henrique não tinha, que soubessem, familiares na cidade? Ainda se algum deles se tivesse lembrado de pedir o contacto da simpática voluntária… Depois de muito matutarem no assunto, decidiram encontrar-se no jardim e tocar à campainha do amigo, que morava do outro lado do quarteirão. Com um esforço sobre-humano, Manuel pegou na bengala e lá foi descendo as escadas, sem cuidar de que teria de tornar a subi-las…
      Tocaram e tocaram. Nada. A certa altura chegou uma vizinha carregada de sacos de comida, e eles desviaram-se para a deixarem entrar.
      – Que fazem aqui? – perguntou a senhora. – Não sabem que deviam estar em casa? Oh! São os amigos do senhor Henrique, não é verdade? Pois… O senhor Henrique faleceu há dois dias! Ataque cardíaco, parece… Estava sozinho em casa! Quem deu o alarme foi a voluntária, que o encontrou caído na sala… Uma tristeza! Deus o tenha em descanso! Vá, vão para casa, protejam-se, que o vírus não é para brincadeiras!
      A vizinha apressou-se a fechar a porta do prédio, fugindo deles como se fossem leprosos. Os três amigos entreolharam-se. O medo que se agigantava dentro do espírito de cada um, tinha uma e a mesma causa: podia vir a acontecer-lhes o mesmo…
      Um bando de andorinhas cruzou os ares como uma lufada de esperança.
      – Ouve lá, Zé – lembrou Manuel –, tu não tens um cão?
      – Sim, tenho… Costumo pedir ao vizinho do lado que mo traga à rua…
      – Pois a partir de hoje, passas tu a trazê-lo, e nós fazemos-te companhia! Eu espanto os outros cães com a bengala, e o Miguel, que tem melhores joelhos, fica encarregado de apanhar os cocós…
      Satisfeitos com o plano de contingência, os três amigos abraçaram-se efusivamente e sentaram-se na beira do lago a ultimar detalhes. Aos oitenta e tal anos de vidas bem preenchidas, não seria um vírus mortífero que os obrigaria a abdicar da que talvez viesse a ser a última Primavera.
      E as andorinhas continuavam a cruzar os céus.
 
 
Ana Ferreira - Portugal
 
 
 
Reflexao em tempos de pandemia
 
 
 
Texto de Antonio Carlos Secchin (Brasil):

SONETO PROFÉTICO

A bola de cristal é opaca e preta,
nela pouco se vê ou se pressente.
O vidro estilhaçado de uma greta
libera a luz noturna do presente.
Antevejo um plantio da semente
incapaz de dar paz a este planeta,
pois você, o jasmim e a violeta
florescem contra mim feito serpente.
Enxergo nada além desse horizonte,
onde ao escuro sucede o mais escuro.
O certo é não prever nenhuma ponte
que possa me levar para o futuro.
Na bola opaca eu leio, transtornado:
seremos bem felizes no passado.

Hoje, o invisível inimigo virótico está em toda parte, especial e perigosamente no “você” de nosso contato mais próximo. O desalento nos faz ver apenas a escuridão após a escuridão, e desejamos estar vivos quando alguma luz, enfim, se acender. Cercados pelas serpentes do obscurantismo, o caminho se torna mais perigoso. E, como antídoto ao pessimismo que fecha o poema, resta-me convocar  um verso de Carlos Drummond de Andrade, desejando que ele também seja profético: “Havemos de amanhecer”.

 
Antonio Secchin-Brasil
 
 
Reflexao em tempos de pandemia
 
 
 
Texto de Antonio Lisboa Carvalho de Miranda (Brasil):

CONTAMINACIÓN AMBIENTAL
(Poema visual)

El hombre es un depredador
que siembra en el aire.

Lenin se quejaba de los libros inútiles.
Mao los quemaba en plaza pública
y nosotros los sacralizamos con oscuras metáforas.

Los hombres se multiplicaban
como panes y los peces en la Biblia
y cada día hay menos pan y peces.

Como larvas y como marabuntas
devoramos nuestro planeta
y lo vomitamos asqueados.

Tres billones y quinientos millones es tan solo una cifra
para las abstraciones de la ONU,
para la política de insumo y consumo
para el fantasma de la renta per capita.

Confucio tuvo un hijo
plantó un árbol
y escribió un libro.
Al parecer tomaron muy en serio su parecer.

Lenin tenía razón:
los millones de ejemplares del Reader’s Digest
están desmatando nuestro planeta.

Por eso escribo en el aire
imprimo mis versos en el tiempo
como en la arena.

Este poema pasará como pasa el viento.

(Valencia, Venezuela, 01.1973)

CONTAMINAÇÃO AMBIENTAL

O homem é um depredador
que semeia no ar.

Lenine queixava-se dos livros inúteis.
Mao queimava-os na praça pública
e nós sacralizamo-los com escuras metáforas.

Os homens multiplicavam-se como os pães e os peixes na Bíblia
e a cada dia há menos pães e peixes.

Como larvas e como marabuntas
devoramos o nosso planeta
e vomitamo-lo, enojados.

Três bilhões e quinhentos milhões
é uma estatística para as abstrações da ONU,
para a política de insumo e consumo,
para o fantasma do PIB per capita.

Confúcio teve um filho,
plantou uma árvore e escreveu um livro.
Parece que não tomaram a sério a sua opinião.

Lenine tinha razão:
os milhões de exemplares do Reader’s Digest
estão a desflorestar o nosso planeta.

Por isso escrevo no ar
e imprimo meus versos no tempo
como na areia.
Este poema passará como passa o vento.

(Valencia, Venezuela, 1973)

 
 
António Miranda-Brasil
 
 
Reflexao sobre a pandemia
 
 
 
Texto de Any Delgado (Cabo Verde):

CONFINAMENTO

Inspirar
Expirar
Dia
Acordar
Mesa
Cadeira
Comer
Tempo

Inspirar
Expirar
Sofá
Parede
Vazio
Horas
Tempo

Inspirar
Expirar
Janela
Rua
Vazio
Silêncios
Depressão
Horas
Tempo

Inspirar
Expirar
Sofá
Saudade
Tristeza
Dor
Horas
Tempo

Inspirar
Expirar
Noite
Mesa
Cadeira
Comer
Quarto
Pensamento
Horas
Tempo

Inspirar
Expirar
Insónia
Tortura
Dormir
Horas
Tempo

 
Any Delgado - Cabo Verde
 
 
Reflexao em tempos de pandemia
 
 
Texto de Fernando Costa (Portugal):

Em tempo de pandemia

Os senhores  nem imaginam quanto para mim tem sido azarenta esta sexta ou sétima semana (já lhes perdi a conta) de confinamento obrigatório por causa do vírus. Cada dia pior que o anterior.
Hoje acordei muito cedo. Não era minha intenção acordar cedo (gosto de dormir a manhã na cama, pouco mais tenho para fazer), mas aí pelas oito ou oito e meia comecei a ouvir pimpins, um a cada segundo. Torneira mal fechada, deduzi. E deduzi porque não era a primeira vez nem a segunda que isso acontecia. O som parecia vir da cozinha, lá fui, vi aquela grande mancha de água no chão. Pois era isso mesmo: torneira mal fechada, válvula deixada no ralo do lava-louça, o pingo encheu o lava-louça, a água extravasou.
Agi rápido de esfregona na mão porque a água já estava a entrar no buraquinho entre o mosaico e a parede deste velho primeiro esquerdo. Velho, e de renda que a segurança social me ajuda a pagar (depois de muitos requerimentos e provas de pobreza, qual delas mais dramática).
Ainda eu não tinha acabado de esfregonar, bate-me à porta a Dona Arlete do rés-do-chão. Ela vem sempre reclamar, palpitei logo mais uma reclamação. A Dona Arlete vinha de máscara cirúrgica e ar zangado. Não disse bom-dia, o que disse foi:
– Ouça lá, você sabe que estamos em pandemia e tem o descaramento de abrir a porta sem máscara que me proteja das suas tosses e espirros?
Recuei prontamente, fui enfiar a máscara, reapareci.
– Já imagino ao que vem, Dona Arlete. Desculpe lá, deixei outra vez a torneira mal fechada, deve haver um pouco de água a escorrer pela sua parede abaixo.
– Um pouco de água? Diga antes um rio!
– As minhas desculpas, Dona Arlete. Vou já limpar a sua parede, dê-me só uns minutos para tirar o pijama e vestir qualquer coisa.
– Entrar em minha casa? É o entras! Eu sei lá se você está infectado?
Lançou-me um olhar esconso, desandou, e manteve o ar esconso a descer a escada. Começava mal o dia.
Já que estava à porta avancei para a caixa do correio à procura daquela carta da segurança social a anunciar o aumento mensal de dois euros na pensão. Havia quase um mês que o aumento tinha sido aprovado em parlamento ─ e o raio da carta nunca mais aparecia a confirmar, tranquilizar. Também não apareceu hoje, na caixa só vi a fatura da luz. O dia continuava mal.
Vesti-me a preceito (não sei bem para quê, não tinha plano de saída), fiz café que bebi sem leite porque o leite tinha acabado ─ e eu não iria conseguir outro pacote porque a lojinha aqui do bairro continua fechada. Não gosto deste café se não lhe misturar um pouco de leite. Porque este café é desses cafés de plástico que vêm em frasquinho e saberão certamente a qualquer coisa ─ mas não a café. O dia piorava a olhos vistos.
Mas, já que estava vestido a preceito, saí para uma daquelas voltas curtas que ainda se autorizam. Ia para onde? Não fazia ideia. Nestas dúvidas costumo rumar à paragem do autocarro e esperar o primeiro que passe. Se for o que vai para Oeiras, vou para Oeiras; se for o que vai para a Amadora, vou para a Amadora. E na Amadora apanho comboio até Lisboa se me sinto tentado a viagem mais longa. Nada de planos prévios, tudo a decidir na hora. Porque planos prévios em tempo de pandemia não se devem fazer, o mais certo é saírem furados.
Passou primeiro o autocarro da Amadora, fui para a Amadora. Que tinha eu a fazer na Amadora? Nada, absolutamente nada. Foi talvez esse nada que me decidiu a entrar no comboio para Lisboa. E que tinha eu fazer em Lisboa? Também nada, absolutamente nada.

Em tempos de pandemia viaja-se bem no comboio: máximo de 10 ou 15 passageiros por carruagem, e bem afastados uns dos outros para evitar contaminações (norma em letras gordas na estação).
Na Amadora só entraram dois na carruagem vazia: eu e um sujeito que se preparava para sentar mesmo a meu lado. Sou de poucas palavras, encostei o indicador da mão esquerda ao indicador da mão direita, depois afastei-os aí uns vinte centímetros. O homem percebeu o convite a afastamento, avançou duas fileiras, instalou-se numa das muitas cadeiras vazias. Estava agora a quase três metros, cumpria a regra. Sou de poucas palavras, só lhe atirei um gesto de agradecimento.
Mas o homem queria falar. Virou-se no assento, disse:
– Desculpe lá, eu sei que não posso sentar junto, mas só queria falar um pouco. Já há dias que não falo com ninguém por causa desta porcaria do confinamento. E eu gosto de falar, trocar umas ideias.
– Troque.
–Bom, na verdade não tenho nada de especial para dizer, só queria desenferrujar a língua.
– Desenferruje.
– É uma chatice esta coisa de termos de ficar confinados em casa por causa do vírus, não é verdade?
– É.
– A vida já estava mal; e agora com este confinamento pior ficou, não acha o senhor?
– Acho.
– Com este confinamento tudo me passou a correr às avessas porque agora até tenho de aturar vizinhos que anteriormente pouco via. Imagine o senhor que ainda não eram sete da manhã e já eu me via obrigado a deixar a cama para atender a fulana do segundo esquerdo ─ reclamação por causa da janela que eu tinha deixado aberta e a bater toda a noite. Veja o senhor que a fulana até me chamou descarado por lhe ter aparecido à porta sem máscara. Então o senhor acha que uma pessoa que acaba de se levantar da cama já tem de andar de máscara?
– Não acho.
– Vi logo que o dia estava a começar mal. E mal continuou porque quando me preparava para “matabichar”  verifiquei que o pão tinha acabado. Onde ia eu arranjar pão com todas as lojas fechadas por causa da pandemia? Não “matabichei”, o dia continuava mau. E pior ficou quando fui à caixa do correio e vi que ainda não tinha chegado a carta da segurança social a anunciar aquele aumento de dois euros que os tipos andaram a discutir no parlamento. Uma chatice. Um tipo ganha tão poucochinho e depois nunca mais aparece o aumento que lhe andaram a prometer. Um problema que o senhor não terá porque a sua reforma deve ser aí uns mil, não?
– Dois.
– Dois mil euros? Porra, isso é um balúrdio! Quem me dera! Mas não pense que tenho inveja. Ganho pouco porque só fiz a 4ª classe, enquanto que o senhor deve ter tirado cursos…
– Vários.
– Olhe, isso de ganhar um balúrdio acaba por não ser lá muito bom porque quanto mais se ganha mais se desconta. A si também lhe devem tirar logo um balúrdio em descontos, não?
– Um balúrdio.
(Afundei-me mais no assento, evitava que ele reparasse bem no casaco coçado. No sapato cambado e na calça de feira não podia ele reparar porque lhe ficavam fora do ângulo de visão.)
O homem continuava a dissertação sobre balúrdios e descontos:
– A mim não fazem desconto porque a minha pensão não chega ao salário mínimo. Com isso tenho sorte. Mas, por outro lado, ganhar abaixo do salário mínimo é tão pouco, não é?
– Deve ser.
– Pois, continuando a nossa conversa, eu já estava tão farto de estar fechado em casa que hoje resolvi sair, ir até Lisboa. Não é que eu tenha alguma coisa a fazer em Lisboa. Nada, absolutamente nada, vou só espairecer. Mas quando cheguei aqui à estação já estava a ficar arrependido. Sabe, é que eu sou muito esquecido, estou na dúvida se deixei ou não deixei a luz da cozinha acesa. Mas que se lixe, resolvi não voltar atrás, vou mesmo espairecer. O senhor também vai espairecer?
– A negócios.
– Pois negócios é coisa a que me não dedico, tirante as couves e as batatas que de vez em quando compro ao Chico Espinha, aquele que tem lojinha de hortícolas na minha rua. Por acaso ainda não me deu os vinte e cinco cêntimos de troco da compra da semana passada. Dizia ele que não tinha moedas. Aldrabice. O senhor conhece o Chico, não conhece?
– Perfeitamente.
– Pois eu não vou a Lisboa a negócios, vou só espairecer na rua. Digo na rua porque às vezes também espaireço em casa. E, porque simpatizo consigo, até lhe vou dizer como espaireço em casa: escrevo. Só fiz a 4ª classe do tempo do Salazar, mas mesmo assim gosto de escrever coisas, é a maneira como espaireço em casa. O senhor por acaso será como eu, também costuma escrever coisas?
– Nunca.
– Pois então aceite o meu conselho, escreva umas coisas de vez em quando. Ajuda a passar o tempo, distrai, e é bom para a saúde da cabeça, não acha?
– Talvez seja.
Ele não chegou a dizer-me que coisas costumava escrever porque o comboio já chegava ao Rossio. Atirei-lhe um aceno de despedida, raspei-me rápido. Sou de poucas conversas e palavras. Não queria mesmo mais conversa com aquele companheiro de desgraças.

E lá estava eu em Lisboa a espairecer sem programa. Para o lado dos Restauradores ou para o Chiado? Não tinha razão especial para optar pelo Chiado, mas optei pelo Chiado. Subi a Rua do Carmo, não ouvi aquele fado da Amália que costuma sair do camião muito antigo que lá costuma estar parado (e agora também está, mas sem disc jockey), olhei com pouco interesse os tipos de trança e as tipas a condizer que se sentam no passeio de mochila ao lado, espreitei (só por espreitar) a montra de uns Armazéns do Chiado fechados, subi a Garrett, vi que na montra da Bertrand (fechada) já estava exposto o último romance de um desses tipos da televisão que escrevem romances, na Brasileira vi muito poucos turistas a “selfar” com o Pessoa, depois fui inspecionar os pombos do Camões, desci para o Cais do Sodré, voltei ao Rossio por aquela rua onde há as casas do bacalhau (onde não comprei bacalhau porque estavam fechadas; e mesmo que estivessem abertas não compraria porque ainda não recebi carta da segurança social a certificar os dois euros de aumento).
No Rossio pareceu-me que já tinha espairecido o suficiente, já podia voltar ao comboio para o regresso, subi a escadaria da estação. Não fui pela escada rolante, não. O diabo tece-as, e eu sei que há sempre uns tipos apressados que ultrapassam e se encostam demasiado quando o fazem. Melhor usar a velha escadaria: em tempo de pandemia homem prevenido vale por dois e meio, diz o meu vizinho Jeremias.

Eu a entrar na carruagem e a ver lá aquele palavroso companheiro de desgraças que até já tinha esquecido. O homem aproximou-se logo, fiz o tal sinal dos indicadores a afastar-se, ele cumpriu, recomeçou a conversa interrompida:
– Olhe, ainda bem que saí de casa, consegui realmente espairecer um pouco em Lisboa. O senhor é que não deve ter podido espairecer porque vinha tratar de negócios. Bem proveitosos esses negócios, suponho…
Não sei se era pergunta ou não, mas respondi:
– Muito.
– Pois eu não sabia que direção tomar, acabei me decidindo pela Rua do Carmo, que é a que fica aqui mais perto. De modo que subi essa rua. Não gosto muito de a subir porque por ela acima vejo sempre aqueles vadios de tatuagem, trança, e brinco na orelha, muitas vezes com uma gajas que não parecem melhores do que eles. Acho que o governo devia era espantá-los dali para fora, obrigá-los a trabalhar, não acha também o senhor?
– Acho.
– Pois continuei rua acima, virei depois para a Garrett, frente à Brasileira lá estavam umas gajas e uns gajos da estranja a tirar selfie com o homem de ferro que está sentado na cadeira. Vejo sempre isto. A propósito: o senhor tem alguma ideia de quem seja o homem de ferro?
– Nenhuma.
– Depois andei mais uns cem metros, cheguei à estátua daquele fulano que escreveu uns versos que os miúdos da escola são obrigados a estudar. Já ouviu falar desses versos, não ouviu?
– Não.
– É pena, porque o Gervásio até diz que esses versos são coisa boa. O senhor conhece o Gervásio, não conhece? Aquele que mora junto ao Minipreço e é casado com a Catarina da papelaria, não conhece?
– Perfeitamente. (Quem diabo será esse Gervásio?)
– Pois o Gervásio diz que os versos são coisa boa. Mas não era do Gervásio que eu queria falar, eu queria era continuar a contar o meu passeio de espairecimento. Da estátua do homem dos versos desci até ao Cais do Sodré, depois voltei ao Rossio por aquela rua onde há as lojas do bacalhau. Mas nem gosto de passar por aí, confesso que tenho sempre inveja daquele bacalhau grosso. No tempo do Salazar também havia um bacalhau fininho, chamavam-lhe de terceira, coisa tão barata que toda a gente podia comprar. Hoje não: bacalhau grosso ou fino é tudo caro, tudo comida de rico. Eu gostava de voltar a ter aquele bacalhau barato dos tempos do Salazar, por isso não percebo porque é que há para aí tanta gente a dizer mal do homem nos jornais e nas televisões. É feio, não acha?
– Acho.
– E também achei feio aquela coisa de os comunas lhe tirarem o nome da ponte, até parece que foram eles, os comunas, a construí-la à pressa na noite de 24 para 25. O senhor acha isso bem?
– Não acho.
Estávamos a chegar à Amadora, o homem levantou-se para sair, pensei que ia finalmente libertar-me dele. Mas não, ele ainda tinha mais para dizer:
– Pois, meu caro senhor, nem imagina como gostei da nossa troca de impressões. O senhor faz pouca pergunta e responde curto, não é como essa gente que passa a vida a tagarelar. Nunca gostei de gente que fala pelos cotovelos, falam muito porque não sabem ouvir. E quando respondem a alguma pergunta dão voltas e mais voltas até chegar àquele ponto que nos interessa. E sabe o senhor mais? Depois de muita conversa veem que não arranjam resposta de jeito, põem-se a divagar, falam disto e daquilo, parece que têm corda. Enfim, gente que fala muito e diz pouco. Mas consigo é mesmo bom falar. Faz pouca pergunta e dá resposta curta. Isso é que é saber conversar. Foi um prazer esta troca de impressões, muito obrigado e proteja-se do vírus. O vírus só devia atacar os que falam demais, mas ataca a todos, por isso proteja-se.
Na plataforma lembrou-se de mais qualquer coisa. Mas a porta já tinha fechado, o comboio partia, e ele corria plataforma fora ao lado do comboio, estava a dizer-me mais qualquer coisa. Mas não percebi, sou mau leitor de lábios.

Cheguei ao meu prédio, vi a Dona Arlete de máscara à janela do rés-do-chão, atirei-lhe aceno amável (a que só respondeu com ar esconso), procurei a chave, quando entrei em casa corri a ver como estavam as coisas na cozinha. Tudo legal, como dizem os brazucas: não ouvi pim….pim, mosaicos bem secos, nada de água a espraiar, alegrei-me.
Mas logo me desalegrei quando entrei no quarto: luz deixada acesa por umas quatro horas e a eletricidade está tão cara! Dia mau até ao fim, vi que precisava de sair outra vez, espairecer mais um pouco. E então lembrei o sujeito que tinha desenferrujado a língua à minha custa e me confidenciara que também espairece em casa escrevendo coisas.
Fiz mais café daquele que sabe a outra qualquer coisa, arregacei as mangas, peguei a bic de ponta fina, e comecei a escrever esta história para que os senhores (e as senhoras) se possam entregar a um pouco de espairecimento caseiro em tempo de pandemia. Certo que não será espairecimento muito cultural porque a minha 4ª classe não dá para isso ─ vem do tempo do Salazar, tal como a do meu companheiro de viagem. Mas se a dele dá para espairecer em casa ─ também a minha há de dar. Pena é que eu ainda não tenha conseguido adaptar-me (ou adatar-me?) a esse novo acordo ortográfico que anda aí pelas esquinas.

 

Fernando Costa - Portugal

 

Reflexao em tempos de pandemia

 

Texto de Germano Almeida (Cabo Verde):
 

QUARENTENA - a cestinha básica

Da sua varanda para a minha o Zé cumprimenta-me com um sonoro bom dia! Mas depois baixa a voz para me perguntar quase num sussurro se não há por aqui nenhuma “cestinha básica” para ele.
Somos vizinhos desde sempre, as nossas relações tiveram muitos altos e baixos, mas melhoraram consideravelmente desde que ele passou a beber só aos fins de semana, dedicando os restantes dias à exploração comercial da casa dos seus pais que transformou num estabelecimento de aluguer de quartos por dias ou por mês. Já lá vão alguns meses que está nessa atividade, aparentemente com proveito porque está com muito bom aspeto físico, limpo e asseado, e também deve andar a alimentar-se e a beber com moderação. Tem voz de trovão, tal qual aliás o pai já tinha, porém trata os seus hóspedes com estima, ouço-o rir com eles, contar piadas, ouvir música, enfim, estão familiarmente em casa. As únicas vezes que o ouço gritar é quando berra “Ou pagas já, ou rua!”
Desde a primeira vez que ouvi esse brado impiedoso que passei a tratá-lo por empresário. Antes disso passava o tempo a pedir-me coisas: Dr, estou sem água em casa, preciso encher uns garrafões; dr, está a faltar-me um dinheirinho para completar o almoço… Cortei isso tudo: Hoje em dia és um empresário estabelecido na praça, no ramo modernamente chamado de hostel, tendo tu a vantagem de não pagar impostos, disse-lhe, eu, pelo contrário, sou um catador sem salário garantido, eu é que devia estar a pedir-te, não o contrário, assim não há mais nada para ti!
Isso já foi há uns tempos e, zangado e orgulhoso, deixou ostensivamente de me cumprimentar e nem água voltou a pedir. Porém, aproveitou agora o covid-19 e o estado de emergência com a cidade fechada para voltar à carga precisamente com a “cesta básica”, que é a expressão que mais se houve no presente tempo.
Na verdade, desde que a decisão foi lembrada e começou a entrar na vida e no vocabulário das ilhas que muito mais gente do que se supunha vem-se achando com direito a uma cesta básica. Sobretudo porque, logo nos primeiros e alarmantes dias da pandemia, quando a imediata e urgente palavra d’ordem foi “lavar as mãos”, com a televisão, em demorados e repetidos programas, mostrando as melhores e mais  infalíveis técnicas de as manter asseadas, diligentes grupos de cidadãos do centro da cidade se juntaram para solidariamente recolher sabão variado e destinado a ser distribuído pelo povo dos bairros periféricos: sabonete, sabão de barra, sabão de potassa, sabão clarim, sabão de glicerina, enfim, qualquer tipo de sabão com capacidade para fazer espuma. Que os destinatários aceitaram e receberam alegremente, não só mostrando especial apetência pelos sabonetes com cheiro tipo palmolive ou nívea, como também lembraram que um dos principais dramas das casas de tambor dos bairros de lata é a falta d’água, e sem ela é de todo impossível lavar as mãos. E os nossos citadinos, reconhecendo a justeza e a verdade dessa injunção, estavam ainda em busca de uma solução para resolver o problema da água, tipo, por exemplo, afretar camiões com tanques e mandar distribuir pela periferia, quando um repentino e exponencial acréscimo de covid-19 levou à declaração da segunda e mais premente palavra d’ordem, “ficar em casa”, por sinal mais enérgica que a anterior “lavar as mãos”, porque agora acompanhada da imposição constitucional e  policial do “estado de emergência” solenemente declarado pelo presidente da República via televisão, ele de fato completo e gravata escura e sem sorriso, tudo a condizer com a gravidade da situação. E então a água foi, se não esquecida, pelo menos banalizada, sobretudo quando, a seguir à normal euforia de, após quase 45 anos de independência, termos finalmente ascendido à categoria de países com pergaminhos de exército nas ruas, se lembraram que, para grande parte do nosso povo, ficar em casa significava passar fome, a menos que fossem socorridos com urgência e sem delongas, porque a sua vida decorre na rua em busca de expedientes que acabam possibilitando que à noite possam levar a panela ao lume e alimentar os filhos, mesmo que seja apenas com chá e bolacha, o famoso “bife de caneca” que ao longo dos anos mais tem alimentado o nosso povo.
Mas de novo o centro da cidade não desmereceu. Num esforço solidário e conjunto, diversos grupos da Morada, alguns apoiados pela Câmara Municipal, outros por conta própria, voltaram a organizar a recolha de bens junto de empresas e pessoas, dando assim origem às famosas “cestas básicas”, que acabaram sendo distribuídas com alguma largueza. De tal modo que, quando há dias um jornal indiretamente atacado pelo covid-19 e em feroz luta pela sobrevivência, me convidou a colaborar com eles através de uma assinatura digital anual, não tive dúvida em dizer à Filomena, Vou oferecer uma “cesta básica” ao jornal tal. Ao jornal, estranhou? Sim, subscrevendo uma assinatura. E custa quanto? Disse-lhe. Bem, isso são pelo menos dez cestas.
De modo que o Zé também quer, mas ele contenta-se com uma cestinha. Tu não, Zé, digo-lhe peremptório, tu és um empresário de sucesso, tu devias estar a distribuir cestas para os mais precisados. Mas ele continua a falar baixo: os quartos estão todos alugados, diz, mas os meus inquilinos estão todos em casa, ficaram mesmo desempregados, ninguém tem dinheiro para pagar, assim como assim não lhes posso pôr na rua. Mas como, pergunto, e o apoio do Governo de que tanto se está a falar? Por enquanto só em palavras, diz ele, só conversa, estamos todos à espera. Bem, assim fica difícil não inventar uma cesta básica para o Zé!

 

Germano Almeida

(créditos fotográficos de Anabela Carvalho)

 

Reflexao em tempos de pandemia

 

Texto de Hélder Simbad (Angola):


A VOZ DO ISOLAMENTO

É inaudível a voz do isolamento
o intestinal grito do estômago da democracia
o medo esmurrando as grades na cabeça

abre-se a garganta em seu invisível presídio
solta o questionário filosófico ou um tratado de fome
Deus e homens e vírus em seus distintos laboratórios

indecifrável vírus o homem
o eco se dilui nas paredes da saudade

E segue a voz isolada na ausência dos homens invisíveis
também as ruas nas crianças com sorte natalícia
é uma voz que se não via em nós escutando perscrutando
voz de memória voz professora
voz sem voz porque se ouve no silêncio

INVISÍVEL BARREIRA

Porém prevalece o tédio
o tempo infinito amargos dias
uma batalha existencial
na roda do globo

Eis o homem das imponentes torres
o das viagens interplanetárias
prostrado diante do minúsculo ser
terráqueo multiplicador

menos que um grão de areia
menos que uma gotícula de saliva
tão enorme como a arrogância

Pede o Estado a mão do pão
lá fora a fratricida história ressuscita
brinquedos da infância acordam gigantes: militares e tanques
lutando contra o invisível

Aqui habita o mar de alcatrão que me separa do amor
portanto eis-me aqui sem mamas para extrair orquídeas
observando a preguiça das horas
enquanto o mundo seleciona habitantes
Puta merda: tenho poesias fervendo na garganta

 

DESCONFINAR-SE?

Tenho de sair para recolher lírios
uma desértica rua espia-me
o soldado o vaso azul ENORME repele-me

Regresso corpo desalmado
como a vasta solidão da casa que assombro
como garfos com facas e lambuzo-me

Beija o copo a fúria do azulejo
cristais kryptonianos mordem pés

Esquizofrénico procuro por mim
não estou o que queres de mim
Covid 19

Abre a vizinha as pernas gaiola e solta o vagipássaro
mas eu escrevo apenas mamas
e nos cus dos Judas outra parte de mim
ama menta-se


A RAZÃO DOS ÁRABES

Nesta convalescente era de todos árabes
parar marchar viajar ramadão
meditar pelas infinitas galáxias de mim

lá fora habitam invisíveis legiões de demónios
e homens de bem mascarados de terroristas

os tanques os soldados as armas de grande porte
o emergente Estado de Emergência espraia
seus conturbados desertos

a revolta dos intestinos a seca na garganta
os milhões da Assembleia Nacional
insensíveis deuses temendo a morte

 

Hélder Simbad

 

Reflexao sobre a pandemia

 

Texto de João Nuno Azambuja (Portugal):

SONETO À REDESCOBERTA 

Talvez nunca soubesse a luz de um rosto,
O toque de uma mão, a cor de um beijo.
Talvez não percebesse quanto vejo,
Debaixo da poeira de um só gosto.

Nunca foi nossa a escolha do imposto,
Mas esta imposição deu-me o ensejo
De perscrutar a fonte do desejo,
Saldando em liberdade o meu desgosto.

No diário da peste fui escrevendo
Esta palavra firme em linhas tortas:
Todo o céu desfraldado em horizonte.

No toque dessa mão fui aprendendo
O quanto num abraço me confortas,
Alma Mater, minha sede, minha fonte.

 

Joao Nuno Azambuja-Portugal

 

Reflexo em tempos de pandemia
 
Texto de John Bella (Angola):


Para a escritora Maria Salomé Alves

Digo-te palavras dóceis neste confinamento
Para que o sentimento se vista de razão

Abro alas ao par desta pandemia
para que o amanhã
aos olhos verdes do mar
nasça como pétalas distribuídas

Digo-te palavras dóceis neste confinamento
para que a luz dos teus lábios rejuvenesça
no calor perdido nos trópicos

Co(n)vid(o) os lençóis  brancos do teu olhar
quebrar como gaivota perdida
a rua 19 do meu andar

Digo-te
e mais não te digo
palavras dóceis neste confinamento
sabes, querida
calamidade nos braços do vento
entrou na idade do templo perdido
naquele balaio escondido
mas sairemos desta madrugada
navegada em mãos da alvorada

 

John Bella

(créditos fotográficos de Anabela Carvalho)

 

Cultura em tempos de pandemia

 
Texto de Jorge Castro (Portugal):

POEMA

Era um dia sem ninguém

era um dia sem ninguém
e a terra ardia
no silêncio que em todo o mundo se ouvia

um silêncio mais tremendo
mais profundo
bem maior que o tamanho deste mundo

só brilhavam no céu
umas estrelas
que ainda ontem por lá não as havia

e brilhavam tanto mais
por cintilarem
no mais negro universo e mais profundo

no entanto
o seu brilho anunciava
que outro dia a nascer acontecia


POEMA PARA O DIA DE AMANHÃ

certo dia plantei uma metáfora
no húmus de vaga ideia
que sem saber me aflorara
adubei-a a réstias de inspiração
e protegia-a de agruras de ventos crus
ou de fera maresia

quando vi que enraizara
enxertei-lhe um soneto lento
de rima cadenciada
a meia altura da base
até um ponto incerto
algures entre o desconhecimento
e coisa nenhuma
só para ver se florescia

cerquei-a de vivências torpes
de mal-queridas verdades
de atropelos e más sortes
mas também de três sorrisos
um de papoila
outro estrela
e outro de ouvir o mar
onde o tempo esmorecia

e quando chegou Abril
já muitos anos depois
de um tempo de clausura
vi a aventura crescer
direita ao céu
perturbante
em cada folha uma pena
em cada fruto um poema
e Abril acontecia.

 
 
Jorge Castro - Portugal
 
 
Reflexao em tempos de pandemia
 
Texto de José Hopffer Almada (Cabo Verde):

A IMORTALIDADE EM TEMPOS DE PANDEMIA
APONTAMENTOS AVULSOS DE UM CONFINADO POR MOR
DA VIGENTE SITUAÇÃO DE CALAMIDADE PÚBLICA SANITÁRIA III
                          
TERCEIRAS ANOTAÇÕES
EM MODO DRAMÁTICO-INTIMISTA E QUASE-METAFÍSICO
As atrocidades em potente latência e aqueloutras já causadas em todos os continentes pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) e pela COVID-19 e de que vamos dando conta e tomando mais exaustivo conhecimento através das notícias (são já mais de trezentos mil mortos em mais de cinco milhões de infectados, afora os assintomáticos não testados), sendo já comparáveis aos morticínios provocados por guerras localizadas, de grande ou média dimensão,  ou por grandes fomes a nível continental e mundial, às mortandades provocadas pelas secas e estiagens e pela incúria do poder colonial no nosso antigo e famigerado arquipélago da fome, e por outras tragédias históricas e catástrofes naturais (ou naturalizadas) que assolaram o nosso vasto e lato mundo, nele incluindo o martirizado povo das nossas ilhas, primam por uma característica sui generis: o silêncio e a sigilosa intimidade na morte que envolvem as suas vítimas, a pouca ferocidade aparente com que labora o agente da morte, a relativa baixa abjecção que a sua aparição pública suscita nos sobreviventes (afora, é claro, os parentes e amigos próximos e/ou mais chegados) e a diminuta repugnância dos cenários fúnebres, se comparada com os cenários de morte de outros, passados, surtos epidémicos e pandemias, tais a peste bubónica (também chamada peste negra), a cólera, a malária, o paludismo, a tuberculose, a varíola (também chamada bexiga), o sarampo, a gripe suína, a peste bovina, a gripe das aves, a gripe espanhola, a doença do sono, a febre amarela, a febre zica, a icterícia, a difteria, o tifo, a sida, o ébola, o dengue, os coronavírus (os antigos e o novo, dos tempos de agora, com as suas novíssimas mutações) e outras pragas infecciosas que hão-de vir com os vírus, os bacilos e outros invisíveis inimigos transmissíveis pelo mero acto de respirar, de falar e de tocar pessoas, bichos e objectos, e outras forças da natureza que hão-de irromper com os micróbios, as bactérias, as secreções anais e vaginais, os ratos, as pulgas, os mosquitos e outros parasitas, e outros seres predilectos da sujidade, da insalubridade, da promiscuidade, da pobreza extrema e da miséria, servem também para nos relembrar, enquanto seres humanos falíveis, da nossa muitas vezes impotente, conquanto amiúde vaidosa e jactante insignificância num mundo indiferente à miséria e às gritantes desigualdades sociais, e a inexistência em vastos espaços do nosso mundo globalizado das condições necessárias e suficientes para a condução de uma vida humana digna, livre da pobreza, da doença, do medo, da ignorância, da discriminação e de outros muitos malefícios e infernos do subdesenvolvimento e da opressão.                            
Talvez porque no caso vertente se trate de um inimigo invisível que, como nos casos de outros conhecidos coronavírus, se propaga no ar e tem na própria respiração humana (ou, melhor, nas vias respiratórias das criaturas humanas), nos espirros, nas gotículas de saliva e em outras secreções mucosas o seu foco e o seu veículo difusores e obriga, nos seus efeitos e repercussões imediatos enquanto foco e veículo de contaminação e da morte (o seu sempre possível sucedâneo) à invisibilidade no quotidiano dos espaços públicos das suas potenciais vítimas, por via do seu confinamento preventivo ou profiláctico no mais íntimo e privado dos lugares, o lar, locus da domesticidade, baluarte da salvaguarda da intimidade da vida privada (agora levada ao extremo, também na morte e na despedida fúnebre, na ausência de verdadeiras e públicas exéquias e cerimónias mortuárias), lugar de reprodução da família e das suas alegrias, de congeminação dos seus projectos individuais e colectivos de uma vida feliz, de troca das mais inconfessáveis confidências e de selagem de muitas outras cumplicidades privadas, mas também lugar de saturação dos laços conjugais e familiares e, assim, de germinação dos seus conflitos e da sua possível derrocada enquanto loca da família.
Deste modo, o silêncio, de todos visível e a todos audível e apreensível, parece ser a atmosfera mais característica do actual surto pandémico.
Silêncio nas ruas, nas alamedas, nas avenidas, nas praças, nos jardins, nas escolas, nas universidades, nas repartições públicas, nos restaurantes, nos quiosques, nas igrejas, nas mesquitas, nas sinagogas e em outros lugares de culto, nos botequins e esplanadas, nos cinemas e teatros, nas praias, nos estádios, nos recintos de espectáculos, nos santuários, nos amplos relvados e em outros recintos abertos para a realização de comícios, de missas campais, de festivais de música e de outras grandes, festivas e altissonantes aglomerações de pessoas.
Silêncio em todos os lugares de exposição pública e privada dos corpos, das almas e dos espíritos, propiciando infinitos tempos de meditação adentrados no confinamento desse sucedâneo de prisão domiciliária em que, por vezes imaginada, se tornou o lar, esse útero da casa de cada um, e no qual os companheiros de cela são os parentes mais chegados do núcleo familiar mais restrito e/ou da família alargada, consoante as circunstâncias de cada um, da sua opulência, da sua riqueza, da sua mediania, da sua normal ou extrema pobreza de meios de condução da vida quotidiana, dos hábitos e tradições da sociedade em que vive e/ou cresce. 
Propiciador de calado e ansioso temor, de desviantes e aterrorizadas atitudes (mesmo se pautadas pela discrição) em face do outro, visto sempre como eventualmente contagiado, e tornado ainda mais suspeito na sua potencial ameaça e latente periculosidade porque virtualmente infectado por um vírus invisível nos seus sintomas e nas suas marcas exteriores, como nos casos mais evidentes dos assintomáticos ainda não detectados e com a actual obrigatoriedade, ainda que somente cívica em Portugal, salvo as devidas excepções dos casos do uso obrigatório de máscaras, o silêncio que rodeia e acompanha a insaciável voracidade da disseminação do novo coronavírus (SARS-CoV-2) e da COVID-19 torna-se ademais mais virulento porque indelevelmente marcado pela paciência.
Não sei se por mor de uma paciência chinesa, neste concreto circunstancialismo ainda assim, e mais uma vez, pejada de sabedoria em face, por um lado, de uma certa e pouco prudente pressa com que alguns vêm encarando a chamada reabertura da economia numa sociedade de mercado marcada pelo consumismo e pela intrínseca necessidade da correlativa contínua expansão da oferta da produção e da procura dos consumidores e dos advenientes ganhos e lucros, aliada à obtusa e abstrusa celeridade (também no sentido próprio psiquiátrico de loucura varrida de celerados, isto é, de seres humanos também céleres na difusão das suas pouco sensatas e potencialmente genocidas acrobacias mentais) de alguns políticos tresloucados nitidamente de má memória futura e, por outro lado, a lentidão com que marcamos os passos nas filas dos mini (e super) mercados, das farmácias, dos mercados e feiras municipais, dos autocarros, dos restaurantes e cafés take away e de encomendas domiciliárias alinhavadas do fundo solitário e apto para a sobrevivência do confinamento, das padarias (incluindo as agora tornadas epidémicas Padarias Portuguesas, se bem que também os benfazejos quiosques de distribuição dos jornais e das revistas da nossa predilecção, tão imprescindíveis agora na melhoria da literacia sanitária dos cidadãos e no combate sem tréguas aos fake news, por vezes equiparados, na sua capacidade danosa e na pretendida criminalização da sua disseminação, aos antigos e convenientes boatos e rumores dos tempos de outrora, no agora relembrado antanho severamente punidos).
Essa mesma lentidão com que nos demoramos nas leituras e nas reflexões sobre as muitas e sempre surpreendentes voltas que o mundo dá e dá ao mundo nosso circundante privado, nos augúrios sobre o que nos anos vindouros há-de vir nas nossas ilhas, no nosso continente, no nosso comum mundo do planeta Terra, da trágica, mortífera e actual comprovação da sua natureza como a nossa casa verdadeiramente comum, de todos os seres humanos sem excepção, com as infecções e os morticínios provocados pela planetária e universal disseminação do novo coronavírus (SARS-CoV-2) e da COVID-19 e com a anunciada e indesmentível crise económica e social do gradual e muito cauteloso pós-desconfinamento e da pós-pandemia dos tempos vindouros …
Mas também dos eventuais planos B, C, D, etc., a serem congeminados, caso efectivamente vier a Humanidade a confrontar-se com uma Guerra infinita ou de muito longa duração por impossibilidade de se encontrar uma vacina para, fora dos laboratórios de virologia de alta segurança, erradicar e extirpar o vírus, e finalmente, e, de forma longeva e duradoura, curar a doença.
     

* O Autor não segue o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990.                     


Jose Hopffer Almada-Bio-CV

(créditos fotográficos de Marlene Nobre)
 
 
Reflexao em tempos de pandemia
 
Texto de José Luís Mendonça (Angola):

VERGONHA

Eu sou o único homem
com vergonha de ser homem.
Vergonha de ter posto o cadáver
do colono na minha cama.
Vergonha de ter bajulado
pra ser hoje o grande profeta
da minha própria ressurreição.
Vergonha de ter cuspido
na cara de um anjo mendigo.
Vergonha de me ter prostituído
em nome da amizade.
Vergonha de me ter calado
na morte do inocente.
Vergonha de ter erguido
estátuas a quem sangrou
a esperança de um povo.
Vergonha de ver como Trump
fatiga demais Xi Jin Ping
por causa da economia.
Vergonha de ver como os sírios
se comem com unhas e dentes
afiados pelas potências
que desgovernam o mundo.
Vergonha de ver o Ruanda
vender o coltan dos zairenses
para eu escrever meus poemas
em directo no Facebook.
Vergonha de ver os filhos
de África no porão
do barco negreiro outra vez.
Vergonha de ver os políticos
darem o ar de outra graça
desde que entrou em Angola
o Covid dezanove.
Eu sinto tanta vergonha
que nem quero me ver ao espelho
da cara do meu irmão.
Eu sou o único homem
com vergonha de ser homem.

 

GRITAR POESIA EM TEMPO DE COVID-19 

Em tempo de Covid-19, impõe-se, com a maior das impaciências, uma reflexão sobre a Cultura global, e sobre as Artes em particular, pois que são as Artes a ponta mais expressiva do Kilimanjaro cultural.
Da parte que me toca, a Literatura, da qual sou cultor, direi que o tempo de confinamento é uma excelente prisão, portanto, abre-se o coração para fazermos aquilo que o tempo normal, a rotina diária – serviço-casa, casa-serviço – mais os deveres socialmente úteis nos impediam de praticar. Deus pôs a mesa aos poetas e romancistas. Sirva-se o manjar de palavras!
Um manjar pronto a ser degustado nas redes sociais – Email, WhatsApp, Youtube, Facebook e outros tubos electronicalíricos, porque a apresentação de obras em eventos públicos está provisoriamente interdita. Assim como interdita está também a impressão do livro. Uma penosa pena de penúria bibliotecária.
Este estado de coisas não obsta, porém, a que se exercite a nossa inicial pronúncia lírica, à entrada da caverna Neolítica, lugar onde começaram as artes plásticas e a arte de cantar e contar. Advogo, pois, o retorno definitivo à Oralitura, ao grito, não apenas esse grito aterrorizante de Edvard Munch, mas todo o conjunto, o de terror perante a fera besta imaginária, num verso poético que ataque o comércio da alma nestes tempos de hiperconsumismo e de desumanos corpos gerentes da sociedade, o grito de vitória perante a besta-fera dente de sabre, o grito de paixão, o grito de dor e pena, o grito silencioso dentro da alma pensante debaixo de um céu estrelado, enfim, todos os gritos do sangue humano.
Comecei a exercitar esse universo de gritos da poesia dos nossos ancestrais e o resultado foi a família me olhar com desconfiança, pensando que agora é que o Zé Luís está a ficar desaparafusado pelo confinamento, é normal nestes casos um artista perder a noção do sensato, embora tivesse prevenido esposa e filhas. De modos que desci ao quintal da casa e, lá fora, comecei a dar os meus gritos, como num festival de Spoken Word. O resultado foi alarmar a vizinhança. Pum-pum-pum, bateram no portão, a mulher foi abrir, Ó vizinha, o vizinho Zé Luís está doente? Gargalhadas. Não, vizinha, a vizinha sabe que ele é poeta, está só a treinar prá quando o Covid acabar, vizinha. Ah, está bem, mana, pensei…
Ponto de ordem: saibam os leitores ocidentais que, aqui em Luanda, vizinho é família, é intruso na nossa quase intimidade, não estranhem, pois.
E agora, José?
Agora, camaradas da pena, concluí que a Lei do Eterno Retorno, tão querida dos antigos filósofos indianos e egípcios e até dos judeus do tempo de Moisés, sem descurar Pitágoras e os estoicos gregos, para emergir no século XIX, com o autor de Assim Falava Zaratrusta, o não menos genial e louco Friedrich Nietzsche, é lei universal. Vejam só como voltaram os cortes de cabelo à Viking, mais as suas extintas tatuagens da cabeça aos pés, para não abrir o cinto e mostrar tatoos em lugares de intenso odor passional e erótico, vejam o retorno da tortura sem quartel e da peste negra.
Estou com Zaratrusta (aliás Nietzsche), que traçou esta norma: “os homens não têm de fugir à vida como os pessimistas, mas como alegres convivas de um banquete que desejam suas taças novamente cheias, e dirão à vida: uma vez mais”.
É que estamos a viver um tempo de euforia publicista. Todo o mundo, mesmo os que não têm sensibilidade para a Arte, estafam-se para publicar um qualquer escrito. O importante é aparecer com o rótulo de escritor. Sabe-se, de antemão, que muitas das pessoas, amigos, familiares, curiosos, pagam o preço do livro no lançamento, depois arrumam-no num canto da casa e nunca, mas nunca mesmo, o leem.
Estamos pois, a viver este tempo altamente contraditório, em que quanto mais se publica, menos se lê. Uma vez mais, dizemos a vida através do Spoken Word, a poesia futurista. Uma vez mais, todo o poeta que se preze deve ser capaz de defender, oralmente, a sua arte.
Isto não cheira ao suor criptogâmico das cavernas da Idade da Pedra Polida? Estamos, ou não, a retornar à era primitiva do grito? O Covid está aí para o confirmar, meus camaradas!

 
Jose Luis Mendoca - Angola
 
 
Reflexao em tempos de pandemia
 
 
Texto de José Luiz Tavares (Cabo Verde):
 
 
          A que não aguentamos esperar  vai nos ensinar. 
          In «Música do Futuro», Hans Magnus Enzensberger 
 
Depois, sim, que agora
estamos vivos.
Depois — quando o espirro
expirar.
Depois — quando tiveres
pó na goela.
Não agora — que agora
estamos vivos,
mesmo se nos interditam
a livre ciência do abraço. 
 
Antes, sim, com os braços
portentosos.
Antes - sim – de o torpor
(n)os desemparelhar, com uma vénia,
pois, sim senhor,
que nunca é cedo para o terror
de, em campo aberto,
se desp(ed)ir do disfarce da vida. 
 
Depois, sim,
porque a catástrofe caminha,
os monstros se desfazem
em ternurenta ladainha,
dizendo à vida enclausurada
que não tarda a primavera, 
 
mesmo se a morte subterrânea
viaja pelo éter, e nas florestas da alma
o som da peste mais do que simples
rima a atafulhar, sonolenta, os ouvidos
é um rude ininterrupto canto. 
 
Antes não, que te falta 
a trela e o apito,
e a cara é sem rugas,
e a morte concorda contigo,
e tudo é mão de amigo
mesmo se te espreita
o tempo inimigo. 
 
Depois sim, que estar vivo
é cedo encarquilhar-se;
não, não agora, porque estás
no imperscrutável interior,
e desconheces o limite ulterior,
e não sabes pedir por favor
o socorro amplamente sufragado. 
 
Agora sim,
que é antes de toda a dor,
e ainda no corpo tens tanta cor,
e sobe-te à boca
cento de sabores. 
 
Mas ainda não ao grande sim,
porque maravilha-te estar aqui
(só mais um instantinho),
embora penses na mão da eternidade
ou como é doce o despenhamento. 
 
Antes não
— porque há a verdade
que desconheces,
e porque verdadeiramente nada sabes
tudo desejas devotamente. 
 
Não ainda
— que os teus ossos
não sabem a alcatrão,
nem depois — que o esqueleto
é pertença do patrão. 
 
Não depois,
mas agora sim,
porque tens fogo nas ventas,
mascas pó e polenta,
e o tempo inimigo te diz
que tudo se há de compor.
 
 
Jose Luiz Tavares - Cabo Verde
(créditos fotográficos de Bruno Portela)
 
 
Reflexao em tempo de pandemia

 

Texto de José Nascimento (Brasil):

A FOGUEIRA

Sei escrever, sim, mas prefiro falar, é mais fácil para mim.

Ainda me sinto confuso. Não me lembro de algumas coisas, delegado.
Nunca tive armas. Não, senhor, não uso drogas. Experimentei maconha e não gostei. Meu vício é uma cachacinha.
Por volta das três da manhã daquele domingo, o barulho de uma porta de carro sendo fechada me acordou. Fazia muito frio. Mendigo tem sono leve. Fome, sede, susto, dor, acordamos por qualquer motivo. Em seguida, escutei uns passos se aproximando e movi a mão por baixo do lençol até encontrar o punhal. Não se pode confiar em alguém que desce de um carro e caminha de madrugada.
Senhor, apareceram dois sujeitos. Não me lembro bem da fisionomia deles, sou ruim de memória e enxergo pouco. Pararam na calçada onde eu estava e derramaram em mim o líquido de uma garrafa. Parecia álcool. Disse, nervoso, para me deixarem em paz e apontei o punhal. Usaram um isqueiro para atear fogo no meu corpo e rapidamente virei uma fogueira. Pulei de dor, era um inferno. Não imaginava ser possível sentir tanta dor. Rolei no chão, mais por instinto do que por reação mesmo, tentando apagar o fogo, e berrei por socorro. Pensei que iria morrer.
Acho que desmaiei. Não sei o que aconteceu depois. Me contaram que alguém chamou uma ambulância.
Perdi os documentos. Não tenho filhos. A mulher me roubou e me abandonou alguns anos atrás. Não tenho parentes. Meus pais são falecidos. Sozinho, delegado. Ser humano se acostuma com tudo. Eu sabia que poderia acontecer, não sou o primeiro nem o último, mas quem iria adivinhar? Consigo assinar, sim.
As feridas não param de coçar. Não sei o que fazer quando receber alta, tenho medo de dormir na rua de novo. Aqui no hospital, apesar do corpo machucado, já consigo comer e tenho cama para dormir. Só não me deixam beber. Os médicos me falaram que uma doença obriga as pessoas a se manterem distantes umas das outras e com máscaras, mas não sei se a notícia me assusta.
Agora que todas suas perguntas foram respondidas, delegado, me desculpe, preciso ficar sozinho por um momento.

 

José Nascimento - Brasil

Reflexao em tempos de pandemia

 

Texto de José Pinto (Portugal):


VENCERIAM UM FOGO COM FOGO, UM INVISÍVEL COM INVISÍVEL

O que é distanciamento social?

Prometeram beijos paternalistas mas o invisível estalou. Não há tempo para makeup, no precipício. É ao natural. Uns líderes encetavam fugas heroicas para o mistério, outros profetizavam desgraça, da qual, viria a descobrir-se, afinal não haviam saído. Atravessaria a rua, onde muitas vezes viu os dois submersos um no outro, entre o último raiar do sol, a primeira queda para a noite e a luz amarelada do candeeiro da rua onde ela mora. Alheios, o rapaz costumava conversar com ela e os dois sorriam nos olhos um do outro. Ela não descia o degrau da porta de casa para o passeio mas a dada altura achou-os abraçados. Atravessava a rua pelo passeio oposto, com passos rápidos e olhos no caminho. O medo é um regime. Depende do que se acha que se tem a perder. Ontem, depois de transes sucessivos para pagar, decretado o isolamento social, atravessa a rua de todos os dias pelo passeio oposto, com passos rápidos e, pelo canto do olho, vê que ele e ela estão à porta de casa dela, ela em cima do degrau, os dois submersos em conversas ondulantes e risos cósmicos, alheios.

(21 de março de 2020)

 

CABO VERDE TEMPORARIAMENTE FECHADO

esticar a rocha
à calma lonjura
de uma raiz
de onde vertem
sóis em flor
desvanecidos no tempo
que virá feito árvore

(19 de março de 2020)

 

NO CORAÇÃO DUMA FICÇÃO

Avanço pelas ruas de Europa. Aqui, o desejo é realizado num estalar de néons e só tem de seguir os hologramas que são projetados dentro da íris. Olhos abundam no meio do ar e cheira a nostalgia sebastiana, anunciando o fim dos pássaros no peito: são eles que guardam os museus e trocam diariamente de turno com os cães. A calçada esventrada pro sol contido no seu pico vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas, na cidade onde a noite não há. Limpam os passeios e as estradas, esterilizam corações, como sorrisos plastificados por máquinas espectrais alimentadas a emoções. A expressão é sinal de cosmos derramado no brilho metálico dos pequenos jatos intimistas. Também há jatos de grande porte, em particular para os fora-de-era – explicara-me um funcionário público que outrora lhes chamavam “atrasados para o trabalho”. O funcionário explicou-me aquilo através de uma aplicação exclusiva para residentes e visitantes de Europa. Ninguém verbaliza com ninguém e tudo se passa entre smartphones. Introduziram a lei do não diálogo, após tentativa de revolução de uma minoria que se encontrava em segredo debaixo da cidade, tirava as máscaras e conversava sobre ética e flores. A aplicação deverá ser descarregada depois de receber o visto de visita e obrigatoriamente antes de passar a fronteira para a cidade. Nada é secreto, tudo é visível na memória mantida em dezenas de elefantes especializados em receber e guardar informação, numa colaboração nunca antes vista entre humanos e animais. Chegado à fronteira para entrar em Europa, deram-me um afago no cabelo e uma máscara de cavalo preto, que de imediato coloquei. Ninguém tira as máscaras. Justificam a lei, dizendo que é para resguardar o eu-universal e em troca de mensagens com os residentes no chat, percebi que uma vasta maioria dá a entender que a empatia é o inimigo número um da tecnocracia. Os cheiros fortes, antigamente característicos dos grandes mercados e bazares de Marrocos e da Turquia, são produzidos em laboratórios construídos para o efeito e libertados no ar de trinta em trinta minutos. Há oito horas que percorro as ruelas de Europa e a fadiga começa a entranhar-se no nariz, até que observo um holograma de vários metros que me recorda a primeira vez que senti vida nas veias e nas artérias. Percorro semiconsciente o caminho até à porta por baixo da jovem que dança e olha pros meus olhos, pela fresta da máscara. Bato à porta e pedem-me que tire a máscara e mostre o meu eu-universal. Peço para entrar. Em troca, pedem empatia: a única forma de pagamento.

(Reportagem literária, 6 de fevereiro de 2020, experimentação em oficina orientada por Luís Carmelo)

 

MORNA PARA UM MUNDO

De costas suadas para o Montara, lavava a roupa numa piscina natural. Voltou-se e perguntou à montanha se NÃO ERA SUPOSTO VIGIAR ETERNAMENTE HOMENULHERES, PARA QUE A TRAGÉDIA NÃO SE REPITA. Ah ah ah, riu um homem mascarado de Platão, enquanto se aproximava delas. Se o vulcão entrar em erupção, kel primer koza k tá bai é sê nariz, disse uma companheira. Escutava Platão com o assombro de quem assiste à telenovela: o Benfica ganhou quatro zero, dizia ele, um emproado, só porque o seu clube favorito havia ganho o campeonato. Tal coisa, respondeu-lhe, acrescentando que descendentes de Atlântida importam-se com sabedom, trabork e paciênce. Daí a riquezância, rematou. Suspendeu a respiração e concluiu, observando a cidade, que homenulheres se haviam tornado indolgent, orgulhoud e fratricide. E quanto mais ardia, mais o Montara a transformava em rocha e nham! Platão Platão, gritou pra ele, vem XXXXXXXXXXXX.

(Paródia mimética de James Joyce, 19 de dezembro de 2019, experimentação em oficina orientada por Luís Carmelo)

 

Jose Pinto - Portugal

 

Reflexao em tempos de pandemia

 

Texto de Kátia Casimiro (Guiné-Bissau):

Coração lavado

Lavar as mãos, lavar a alma e lavar o coração
Promovendo a higiene, a serenidade e a oração
Maldito vírus, sem princípios
Sem nenhuma educação
Chegou, entrou, não  avisou
Todas as portas arrombou…
Do oriente ao ocidente
Do norte para o sul
Foi ocupando a casa toda
Sem diplomacia, completamente  nu.
Lavar as mãos, lavar a alma e lavar o coração
Não temos outra alternativa
Não existe outra solução
Como se ainda não bastasse,
Todo o mal que nos causou
Ainda exigiu a solidão, pois a todos isolou
De onde vem, para onde vai?
O que nos quer ensinar?
Além de lavar as mãos, lavar a alma e lavar o coração ?
Parece que veio nos lembrar
que somos todos um povo irmão
Nem o crente, nem o ateu
Nem o pobre, tão pouco o rico
Conseguiu prever esta sina
Em que este tão maldito vírus
A todos intimidaria
Nãohouve raça nem cor que lhe pudesse enganar
Este vírus não quis saber de nada,
Veio mesmo para matar!
Seja alto, seja baixo
Seja gordo ou seja magro
O melhor sempre será
Lavar as mãos, lavar a alma e lavar o coração
E ajudar o meu vizinho que afinal é meu irmão.
Este vírus de nome corona
Sem timidez, sem humildade,
Com muito pouca vergonha na cara,
Também é mesquinho e malandro
Não mostra forma nem cheiro
Não presta para nada!
Lavar as mãos, lavar a alma e lavar o coração
Ficar em casa, parar o mundo,
Para travar o que de mal vem
Só repetimos a frase,
em que temos de acreditar
Isto um dia vai passar,
Vamos todos ficar bem!

 

Kátia Casimiro - Guiné-Bissau

 

Reflexao em tempos de pandemia

 

Texto de Lídia Jorge (Portugal):

A LÍNGUA PORTUGUESA
Resposta aos estudantes da Universidade de Genève

Cada língua tem o seu corpo e o seu espírito. Basta pensar que entre a língua espanhola e a portuguesa é grande a coincidência semântica, sintática e morfológica, mas na fonética e na expressividade verbal são duas línguas muito distintas. Cervantes disse que a língua portuguesa era o espanhol sem ossos, Español sin huesos, certamente porque a considerava uma língua modulada, de textura suave. Trata-se de uma síntese muito interessante. É que o castelhano avança para o final das frases galopando, como um cavalinho. O cavalinho da língua espanhola trota, avança triunfante por entre as frases, e o português ondula, como se os seus ossos fossem feitos de água. Acho muito curiosa essa expressão de Cervantes. Já com o francês a comparação é outra. Línguas mais afastadas entre si, dentro do espectro das línguas românicas, a língua francesa tem jardins de Versailles dentro dela. É geometria, racionalidade, compostura, altivez grave, feita de pompas triangulares. Basta pronunciar Allons enfants de la Patrie…, para se sentir essa esquadria dentro da qual existe um camponês que tem alma de rei-sol. Mesmo falando de vacas e centeio, o francês é pronunciado a partir de um palácio.  O português é marítimo, e é rural, do campo e da igreja, a igreja de granito ou de cal, e não tem palácio na sua estrutura, tem palheiro e flores silvestres. Heróis do mar, nobre povo/ Nação valente e imortal? Boas intenções, as do seu hino. Mas a língua portuguesa não acredita na nobreza nem na bravura. Acredita só na terceira categoria, a imortalidade. É uma língua feita para cantar melodias mansas, transcendentais – Vem saber se o mar terá razão/ Vem cá ver bailar meu coração...  Estamos a falar das línguas latinas, que têm menos vocábulos do que a língua inglesa. Pensemos então no inglês e no português. Este livro em inglês teria menos um quarto das páginas. Porquê? Porque o inglês tem mais vocábulos que o português, bastantes mais. O português, para as mesmas ideias, precisa de encontrar metáforas. Como a metáfora exige muitas palavras, o texto torna-se mais longo. Mais longo em português do que em espanhol. O espanhol tem mais palavras do que o português. Para sermos francos, a língua portuguesa é maravilhosa, mas não podemos mentir sobre o seu número de vocábulos. Nós temos menos vocábulos do que os espanhóis, menos vocábulos que os franceses, menos vocábulos que os ingleses. Mas, em compensação, temos agilidade na criação de expressões. E, nesse campo, ninguém nos bate, a língua portuguesa é mais criativa do que a língua francesa e a inglesa, porque estamos treinados para a metáfora e, por isso, o português é eminentemente poético e transfigurador. Esse é o segredo da nossa riqueza expressiva. Este tipo de linguagem explica que a nossa escrita literária seja litúrgica e repetitiva. Os textos dos portugueses, dos melhores escritores portugueses, são textos repetitivos. Vejam, por exemplo, José Saramago como repete. Também Agustina Bessa Luís repete.  Lobo Antunes, repete, repete... Quer dizer, há construções nas páginas dos escritores portugueses que parecem orações. Na escrita portuguesa há alguma coisa de tautológico, o vício do emparelhamento, como nos textos religiosos. A nossa poética é repetitiva. Os nossos livros são repetitivos. Alguns deles deliciosamente repetitivos. Quem usa a língua portuguesa sabe que a repetição é a forma de declarar que nenhuma língua tem os instrumentos necessários para exprimir a totalidade do desejo. Então, podemos e devemos repetir à vontade. Como não amar esta língua?

 

Lidia Jore - Portugal

(créditos fotográficos de Câmara Municipal de Loulé)

 

Reflexao sobre a pandemia


Texto de Luísa Fresta (Angola-Portugal):

                                                                   
ALMAS GÉMEAS

— Trago um recado da Ceifeira
Sou o seu homem de mão
Ando de qualquer maneira
Mato a fome em qualquer nação

— Muito prazer senhor Esbirro
Chegue mais perto de mim
Sou a Pobreza, não espirro
Só tusso vagas tristezas [sem fim]

— O meu nome é Vírus, sou o devir
[Corona Vírus, muito prazer, na verdade]
Procuro um lugar onde dormir
Para me instalar na cidade

— Tem logo ali um mercado
Estava guardado o seu posto
Fique à vontade, é nosso convidado
Acomode-se a seu gosto

— Minha senhora, é profundo
O meu respeito e reconhecimento
Diga-me: como extrai deste mundo
Tão misteriosa dama o seu sustento?

— Ah, ah, ah, ah, descanse e espalhe
Veneno por outros mais desatentos
Talvez a sorte lhe sorria e calhe
Aos seus infaustos intentos

Saiba o senhor que eu vivo da guerra
Do desemprego e da exploração
Até o céu é dos pobres [donos da terra]
Ninguém suplanta a minha intervenção

— Como contrariá-la? Ou desiludi-la?
Talvez nos pudéssemos unir…
A humanidade anda cega — em fila
Vamos acabar o que ajudou a destruir…

— Não faço alianças com arrivistas
Reconheça o meu poder sobre a vida
Conheço à légua oportunistas
Campeões de ambição desmedida …

Nessa noite o Corona aconselhou-se
Com a patroa. — Essa Pobreza é atrevida
E refilona; mas ainda não me trouxe
Em vidas a dívida assumida

A partir de hoje viajas sem parar
Pelos turistas, pelos emigrantes
Pelos transeuntes, onde calhar
Pelas famílias pobres e errantes

Conhecerás a fundo todos os países
E entrarás também nas zonas abastadas
Cumprirás as ameaças e o que dizes
Mesmo nas mansões mais resguardadas

Corona Vírus acatou e engravidou mulheres
Contaminou homens de todas as línguas e credos
Conspurcou mesas, portas, roupas e talheres
Penetrou em caucasianas e berberes

Mas um dia acordou fraco e enjoado
Sem forças para entrar no corpo
De quem quer que fosse. Apagado
E inofensivo como um retrato morto

Um dos seus filhos foi o causador
Do seu torpor e decadência
[O vírus moribundo emudecido pela dor
Entregou-se, num gesto de decência]

O troféu que não soube conquistar
É da Pobreza e dos parceiros mais leais
Malária, Zika e Ébola voltaram a brilhar
Fotografados em todos os jornais

 

Luisa Fresta

 

Reflexao em tempos de pandemia

 

 

Texto de Madalena Mira (Portugal):

A CONQUISTA DO MUNDO

Acordou sem saber onde estava. Espreguiçou-se e acordou outros como ele. Saltitaram cada um para seu lado deixando-se levar como se estivessem numa corrida onde nada era controlado por eles, mas que lhes garantia transporte.

Mãos, pés, roupa, carros e bicicletas, qualquer coisa lhes servia, e se havia bicicletas!, que apesar de não serem velozes como outros veículos eram seguras no caminho. Iam, e era quanto bastava. Ou nem isso, porque nem sabiam que estavam a ir.

Mas foram. Foram da Ásia para a Europa, América, África e Oceânia. Foram a pé e de avião, de carro e de barco. Foram a grandes cidades e a pequenas aldeias. E em todo o lado encontravam terreno fértil para se instalarem e reproduzirem.

Confundiram-se com a essência do mundo atual, em permanente movimento, e com a essência de mundos passados, colonizando, e transformaram o planeta num enorme desfiladeiro por onde passava uma invisível manada em debandada. Cegos perante classes sociais, surdos perante diferentes línguas de diferentes países e mudos na resposta a todas as preces, instalaram-se, criando o caos.

Ao longo da sua história a Humanidade não se lembrava de ter trabalhado em uníssono. Já tinha feito vários projetos em equipa, tomado decisões continentais, mas nunca se tinha ouvido o mesmo grito lançado dos diferentes fusos horários: Fica em casa, enquanto se rezava aos médicos.

Os presidentes, ministros e reis uniram-se fortemente ordenando o encerramento do mundo, que se fechou entre quatro paredes, numa ação comum que, se pensada anteriormente, dir-se-ia que todos tinham que estar juntos. E estavam! Mas afastados. Abandonaram-se os lugares de trabalho e as escolas, as fábricas, as empresas, as economias fecharam.

Os cidadãos agiram civicamente, numa atitude impensável, como quem fala baixo para passar despercebido, a gigante multidão cerrou portas para impedir a entrada a quem não viesse por bem e assim se mantiveram, sabendo que a proteção era mais vital que o colapso financeiro que se lhe seguiria.

O movimento que esvaziou ruas, praças e estradas, acotovelou-se nos wi-fis, o ar que se deixou de partilhar robusteceu-se, a água que se poluía cristalizou-se, e percebeu-se que muitas, muitíssimas tarefas podiam ser feitas à distância. A adaptação começou a ganhar contornos de transformação.

Porém, a vaga invisível torneava tudo e todos, escapava-se nos intervalos da chuva, sobrevivia em qualquer superfície e lançava uma febre miudinha, um mal-estar que, a muitos, não passava disso. A outros, matava-os.
A Morte, que andava sempre ocupada e desconhecia o significado de fins de semana ou férias, mantinha um negócio próspero, mesmo em épocas de poucas guerras, e havia uma ironia na sua existência que lhe causava até vontade de rir: ela, Morte, tinha vida eterna. Estava presente para todos, grandes, a quem chamavam adultos, e pequenos, a quem chamavam crianças. Não importava o tamanho, o peito subia e descia, ela chegava e o movimento parava.

De início não percebeu muito bem o que passava, mas estranhou a diminuição de trabalhos na estrada, não havia acidentes de sangue nas ruas, não havia criminosos à vista. Porém, os hospitais revelavam uma atividade invulgar.

A Morte estava habituada a lidar com surtos e a deslocar-se em velocidade fantasmagórica de qualquer lado para todos os sítios onde o seu negócio florescesse, sem deixar de atender a velhos em aldeias perdidas ou a novos em vielas escuras. Ninguém a queria, mas todos a tinham.

Via a Humanidade a agir de forma bizarra: batia palmas, elevava valores esquecidos, agia em sentida solidariedade, ponderava com cientistas rigorosos em várias línguas como se fossem vizinhos ou família, exigia rigor e ética, esbanjava precaução e cuidados. Fazia-se mea culpa, e compensava-se com empréstimos, ofertas, doações, perdões, ventiladores e máscaras.

A Morte, atenta, franzia o sobrolho com a quantidade de trabalho nos hospitais, com os carros pretos das agências funerárias a darem lugar a camiões brancos de refrigeração. Os mortos acumulavam-se sem funerais, sem famílias, lágrimas ou choros, embora se ouvissem à distância. Onde estavam as manifestações de saudade pelos desaparecidos?

Pela primeira vez na história da vida da Humanidade, a Morte entendeu que não tinha condições de trabalho. Cenários de guerra ou gulags eram locais concentrados, picos de atividade no espaço e no tempo, mas isto…

Com o mundo num caos económico e social, depressivo e angustiado, enlutado, mas unido, a Morte, cansada e determinada em voltar ao antigo patamar de trabalho, decidiu não colaborar na loucura que testemunhava, virou as costas à Humanidade e afastou-se arrojando o seu manto negro.

Nos dias seguintes, as portas abriram-se lentamente, e a Cultura, que tinha mitigado a distância com livros, música, com atores e protagonistas vários a cantarem, dançarem, interpretarem, tocarem para um mundo que os recebia através das janelas dos telefones, dos computadores e das televisões, saiu à rua abraçada às pessoas e a gritar Liberdade!

 

Madalena Mira - Portugal

 

Reflexao sobre a pandemia

 

 

Texto de Marciano Gualberto Nascimento (Brasil):

OLHAR SOBRE AS PESTES 

Covid-19, peste que não só reflete a morte,
Mas o mal caráter dos seres humanos
O mundo tá acabando e você aí,
Cada vez mais arrogante, orgulhoso e egoísta

É mais fácil o ser humano acabar com o mundo
Do que um vírus proliferado
Deixe máscaras para contaminados,
E não para esconder seu “pandemônio” facial

Dentre a peste negra (século 14), a gripe espanhola pós-Grande Guerra,
E todos os outros surtos, você não ampliou sua percepção
Sobre o valor da vida,
E me faz surtar ainda mais.


Marciano Nascimento

 

Reflexao sobre a pandemia

 

 

Texto de Olinda Beja (São Tomé e Príncipe):

LER POESIA EM TEMPOS DE PANDEMIA

Abril de 2020, inédito (incluso está um poema escrito em maio de 1968,
“Nós éramos sete à mesa”)

Do espetro do nada
apareceu sem ser esperada… a solidão
apareceu e perentória anunciou “de hoje em diante
eu solidão vos condeno ao exílio das águas correntes…
cristalinas… cantantes…
ao silêncio das crianças a sair da casa do Mestre
à míngua de beijos e de abraços afetuosos
quentes meigos tímidos tempestuosos…”

Na sua mansarda o poeta tudo ouviu
mas não se atemorizou
na solidão sempre viveu, a ela se habituou
abriu gavetas há muito fechadas
rebuscou papéis antigos
onde em tempos de estúrdia
escrevia poemas aos amigos
e às namoradas
depois veio a net… a modernice e os papéis ficaram
sem serventia
mas agora em tempo de pandemia
o poeta entendeu por bem voltar a usar
aquelas folhas e nelas espelhar
a sua arte a sua solidão
que agora lhe servia de inspiração para ouvir melhor
o que se passava na casa dos vizinhos … até o amor
saboreava-o na cama dos outros que gemia
na voz feminina que cantava numa prece
aquela canção que nunca mais se esquece
“Quem mostra bo es caminho longe?
Quem mostra bo es caminho longe?
Es caminho pa São Tomé”

E a inspiração avançava
no prédio da frente na varanda do lado
e o poeta escrevia o seu futuro e o seu passado

De repente
no passeio os agentes da ordem impunham o confinamento
a clausura
guardadores de ruas e fronteiras
batendo a bota na calçada dando um ar de compostura
à obrigação que a lei impunha. Célere o poeta vem à janela
arremessando
os papéis onde começara a escrever a sua saga
gritando:
“Leiam amigos! leiam poesia em tempos de pandemia!”
Incrédulo, um dos agentes se baixou e timidamente começou a ler:
“Nós éramos sete à mesa, éramos sete ao jantar”
– mais alto – gritou o poeta – mais alto… com mais vigor”
E o agente encheu o peito e a voz abriu-se em flor!
“Nós éramos sete à mesa, éramos sete ao jantar
os pais, a avó, a Teresa, o João e o Waldemar
nós éramos sete à mesa, éramos sete ao jantar
e a vida simples corria em longínquos cruzamentos
que minha avó transmitia em histórias de momentos
passados junto à lareira a enganar pensamentos.”

Ouviram-se aplausos e as varandas pediram de novo
que os agentes da ordem, esses homens que também são povo
lessem mais. E mais. E foi a vez de um agente feminino
docemente erguer a voz:

“Um dia chegou porém que o pai adoeceu
– tísica – disse o médico – e o seu corpo emagreceu
tanto, tanto, tanto, tanto que o sol desapareceu
de seus olhos cor do mar que só a terra comeu
e agora éramos seis à mesa, éramos seis ao jantar
a mãe, a avó, a Teresa, o João e o Waldemar
agora éramos seis à mesa. Éramos seis ao jantar…”

Voltaremos amanhã – disseram emocionados
com tais ovações sentidas
em janelas e varandas esquecidas
da solidão imposta pelo invisível inimigo
que tanta força dava ao poeta desconhecido que escrevia
o que ele próprio agora lia:

“António conheceu Teresa no baile da romaria
prometeu dar-lhe outra vida. Ele mesmo a levaria
pra longes terras de França onde nada faltaria
nem mesmo um filho sem pai que ele próprio lhe faria!
A mãe não compreendia porque partia a Teresa
coitada, ela só via menos um lugar à mesa
e um neto sem ter um pai e um coração de tristeza
e éramos cinco à mesa, éramos cinco ao jantar
a mãe, a avó, o João e o Waldemar
nós éramos cinco à mesa, éramos cinco ao jantar.”
E as janelas se abriam. As varandas, os terraços
as vizinhas que sorriam e sem qualquer embaraço
pediam mais folhas soltas bordadas de poesia
e gentilmente o poeta a todas satisfazia
e alto, bem alto lia:

“Mas quando agosto chegou no ano logo a seguir
o João deu a notícia que a mãe não queria ouvir
partia para o Brasil que o tio o queria lá
para que ele o ajudasse nas terras do seu Pará
onde a riqueza era tanta que João nem hesitou
e antes mesmo do natal num cargueiro embarcou
e a nossa mesa de cinco em quatro se transformou
nós éramos quatro à mesa, éramos quatro ao jantar
a avó, a mãe e o Waldemar
nós éramos quatro à mesa, éramos quatro ao jantar.”

E à hora que era esperada os agentes apareciam em busca dos
seus papéis
que de homens tão anónimos os faziam sentir reis
ao lerem para as varandas o que as folhas escondiam
a vida de um poeta que eles agora sabiam
por isso liam, e liam…
“Quando João escreveu contando a desilusão
que a riqueza do seu tio era no triste sertão
donde nunca ele sairia pois não ganhava um tostão
a avó chorou tanto, tanto que em breve a morte a chamou
e a casa encheu-se de pranto e a mesa com três ficou
já éramos só três à mesa
éramos três ao jantar
o Waldemar e a mãe, a mãe e o Waldemar
e eu ainda tão criança nem dava para contar
mas éramos três à mesa, éramos três ao jantar…”

E era a vez da mulher-agente que ficava comovida
com tanta palavra bela a cimentar uma vida
ler em voz alta com profunda nostalgia
o que o poeta escrevia:

“a carta chegou fechada avisando o militar
que pela pátria sagrada teria que ir lutar
e o barco que o levou a uma guerra sem razão
regressou
mas ele não
só veio uma outra carta com fita negra a dizer
“’morreu em defesa da Pátria. É herói do Ultramar’”
e assim foi o fim inglório do meu irmão Waldemar
e a mãe não resistiu. Pouco tempo sobreviveu
a tanta calamidade que na casa se abateu
e de dia para a noite seu cabelo embranqueceu
e seu corpo deu à terra talvez sonhando ir ao céu”

Os aplausos eram tais que toda a gente olhava
para a pequena mansarda que tanta folha enviava
e orgulhoso o poeta a sua saga fechava:

“no dia em que a mãe partiu a mesa ficou vazia
só eu estava sentado, só eu sozinho dizia
nós éramos sete à mesa, éramos sete ao jantar
os pais a avó a Teresa o João e o Waldemar
nós éramos sete a mesa, éramos sete ao jantar”.

E os agentes e os vizinhos que às janelas esperavam
os poemas que um poeta naquelas folhas escrevia
souberam da sua saga em tempos de pandemia
quando o espetro da solidão lhes ditou rígidas leis

E sempre à hora marcada os vizinhos e os agentes
que agora se julgam reis
esperavam outras folhas cheias da tal harmonia
juntamente com o grito que da mansarda
se ouvia:
– Leiam amigos, leiam poesia, em tempos de pandemia!

 

Olinda Beja - São Tomé e Principe

 

Reflexao sobre a pandemia

 

 

Texto de Ozias Filho (Brasil):

três poemas em tempos de pandemia*

quem é este que se me apresenta?
lembra-me alguém em tempo de férias
olha para os dias parados no espelho
e não enxerga mar gente selfies
***
a casa ameaçada pelo invisível
não se aguenta
nas pernas
o lugar vago na poltrona
o lugar da televisão
o lugar vago na cama
do hospital
o invisível venceu
***
O silêncio corta
a cidade de domingos
e nunca mais é segunda-feira

*poemas do livro O avesso da casa (inédito)

 

Ozias Filho - Brasil

(créditos fotográficos de Raquel Barata)


Reflexao em tempos de pandemia

 


Texto de Regina Correia (Portugal - Angola):

1. MÁSCARAS

Espera-se pouco do miolo que, de
si mesmo, cria o vazio vivo da
máscara no centro dos pesadelos,
na vibração dos signos alterados.

Já nada golpeia os laços frouxos
da contemplação. Recentra-se a maré
no tempo que tudo leva. Quem corre
para os arcos detrás dos condenados?

Mais tarde, frente ao sol, novas máscaras.
Um pássaro renova canto e margens
sobre os frutos que emergem minerais.

Diante das cicatrizes na pedra
sem máscara sucumbe o antílope
ao golpe pleno dos pontos cardeais.


2. DESASSOMBRO

no poema etérea luz
que aviva traços frágeis da
existência consumida

mais do que bênção no centro
da harmonia quebrada
diz réstia de desassombro
à romagem confrangida

não cuidemos que é ventura
singular num recomeço
enfermo da sementeira

prevalece um subterrâneo
credo à prova de qualquer
desordem na voz que agita
letais garras da cegueira

ouve-se no contorno dos
signos murmúrio fino
da palavra iridescente

agora que o vento brada
sôfregas urgências de um
cárcere exposto onde
vibram clarões no poente

in No Coração dos Desertos e outros Oásis (inédito)

 

REgina Correia

(créditos fotográficos de Bem do Rosário)

 

Reflexao em tempos de pandemia

 


Texto de Valentino Viegas (Goa):

O VÍRUS MENTAL

Acabo de ouvir bombardeamentos. Aviões de combate, depois de terem sobrevoado a minha casa, a alta velocidade, devem ter lançado bombas contra objectivos estratégicos. Dirijo-me para o calendário, abrilhantado com o mapa de Goa, e sublinho o dia 18 de Dezembro de 1961, como quem identifica e assinala uma data a não esquecer.
Será verdade? A guerra terá mesmo começado? Custa-me a acreditar. Os vizinhos assustados acabam de sair das casas. Juntaram-se no largo defronte da varanda da minha residência. Estão alvoraçados, discutem em uníssono e ninguém se entende.

Cuidado, máximo cuidado, há silêncio a mais, temos de redobrar a atenção. Vamos ser atacados, pressinto a presença do inimigo. O terreno é propício para uma emboscada. Está de certeza escondido nas proximidades, por detrás dos pedregulhos e das árvores.
Continua a chover sem cessar. O objectivo a destruir está localizado acolá, no planalto, a ser alcançado após ultrapassarmos a elevação do terreno. Por não vislumbrar outra alternativa, desviando o olhar com um ligeiro movimento da cabeça, dou ordem para avançar. No dia anterior, com aerograma datado de Outubro de 1965, tinha escrito a uma das minhas madrinhas de guerra dizendo-lhe que, de madrugada, iríamos iniciar uma perigosa operação na serra de Uíge, no Norte de Angola.

Quando, vindo de Goa, desembarco em Lisboa no dia 29 de Fevereiro de 2020, prevejo, brevemente, mudanças profundas na sociedade portuguesa. O previsível aconteceu e, a partir de 3 de Abril, o Presidente da República declara o estado de emergência com fundamento na verificação de calamidade pública. Em consequência, estou proibido de sair da casa a não ser para comprar bens alimentares ou ir à farmácia.
Dizem-me que devido à minha provecta idade faço parte do grupo de risco e que o inimigo me escolheu como alvo preferencial. Quando pergunto de quem se trata e onde se encontra, respondem-me afiançando ser um tal de nome Covid-19, invisível a olho nu, que pode estar em toda a parte. Avisam-me: ao mínimo descuido, pode entrar em tua casa, transportado, sem o saber, por familiar, amigo ou desconhecido, e atacar-te de forma inteligente, a ponto de ignorares a sua presença.

A guerra tinha começado antes do nascer da aurora. Tropas indianas avançavam a bom ritmo, apesar de encontrarem algumas pontes destruídas. Procuravam não abrir fogo contra posições ocupadas pelos portugueses. Senhores do espaço aéreo, com clara superioridade em homens e material bélico, obrigavam os defensores a recuar bombardeando nas proximidades e intimando os soldados com voos rasantes de caças de combate.

O soldado que avançava à minha frente, cumprindo ordens, pára bruscamente, pois pareceu-lhe ter visto ou ouvido algo de estranho. Não dispara por não querer denunciar a sua posição ou desejar surpreender o inimigo. Na sua retaguarda, a metro e meio de distância, estanco o pé esquerdo e firmo o direito, com o dedo indicador resolutamente posicionado no gatilho da espingarda G3. Observo à minha frente, só vejo árvores e densa vegetação, perscruto dos lados, tentando furar com os olhos o emaranhado das folhas e troncos entrelaçados, para descobrir algum vulto escondido.

Saio?
Não, pois podes dar um passo em falso e antecipar a tua morte. Pela tua saúde, o melhor é permaneceres onde estás. O inimigo está lá fora à tua espera. Por favor, sê responsável, fica em casa, não saias.
Passaram mais de vinte dias desde que chegaste de Goa. Se continuas a desfrutar de boa saúde é porque ainda não foste contaminado. Tem paciência, aguenta-te, conserva-te em casa.

De Betim olhava para a cidade de Pangim. Prudentemente, os carros não circulavam e a maioria das pessoas tinha recolhido para localidades do interior. O palácio de Hidalcão, antiga residência dos vice-reis, parecia um fantasma plantado na margem esquerda da foz do rio Mandovi. Em poucas horas a população tinha fugido, transportando pertences mais importantes. Sem directrizes nem instruções, cada qual procurava encontrar a melhor solução para proteger a sua vida. Umas quantas pessoas ainda permaneciam recolhidas nas suas casas, outras procuravam refúgio junto dos familiares mais bem informados. A capital, sem vivalma nas ruas, cumpria um recolher obrigatório sem ninguém o ter ordenado.
De bicicleta, acompanhado de um amigo, pedalei pressuroso até chegar a um monte para assistir ao combate naval, sem sucesso, do aviso (1)  “Afonso de Albuquerque” contra vasos de guerra inimigos.
Sem meios de comunicação, dotado de material de guerra obsoleto, o exército português, que recebera ordens de Salazar para resistir até à morte, de recuo em recuo, fica confinado em Mormugão. Ansioso, de coração nas mãos, a milhares de quilómetros dos familiares, em sofrimento permanente, aguarda a decisão dos vencedores.

Apesar de continuar a chover incessantemente, transpiro sem cessar. Stressado, aguardo o inevitável. Já não era a primeira vez que isso acontecia. Havia sempre o antes e o depois. Antes de soar o primeiro tiro, as fracções de segundo representavam uma eternidade. Com corpo tenso e concentração no limite, era necessário continuar a avançar. Cada passo em frente representava a aproximação do encontro com a morte. Ninguém adivinhava quem seria o escolhido. Podia ser o soldado que ia à minha frente, podia ser eu ou qualquer outro camarada da retaguarda, tudo dependia da escolha feita pelo inimigo invisível. Naquele momento de suspense, a minha vida, a nossa vida, deixara de estar nas nossas mãos. Alguém, que eu desconhecia e também não me conhecia, podia decidir se eu, ou outro camarada, devia viver ou morrer, era só premir o gatilho e acertar com precisão no alvo escolhido.

Já chateia, estou saturado e farto de ser prisioneiro dentro da minha própria casa. Decidi, está decidido, vou sair. Despeço-me da minha mulher, como quem aceita o desafio de arriscar a vida no itinerário da caminhada da incerteza. Precavido, em vez de apanhar o elevador, desço pelas escadas. Na rua, começo a respirar ar puro. Tomo a direcção da mata de Monsanto, são escassos cinco minutos a pé. Embrenho-me no interior e, respeitando o distanciamento físico recomendado, cruzo-me com algumas pessoas, umas com, outras sem máscaras. Se no passado nos cumprimentávamos, mesmo desconhecendo-nos, no presente, os caminhantes e os corredores afastam-se e desviam o olhar, como se os olhos projectassem a doença. Enquanto prossigo, recordo com satisfação que os cientistas trabalhavam afanosamente para descobrir a vacina contra o Covid-19. Sorrio e digo para mim: aproxima-se o teu fim, grande malandro, já vais ver, é só uma questão de tempo.
Distanciado da casa, subitamente apanho um susto de morrer. Recordo-me de ter posto a mão direita no corrimão, ao descer as escadas. Durante o percurso pela mata, por mais de uma vez passara a mesma mão pela cara, colocando-a na boca e nariz. Estou perdido, posso estar infectado!

Nas três situações descritas, tão distanciadas no tempo, com intervenção de agressores e agredidos, incluindo o próprio vírus, há uma sensação prevalecente entre os participantes, cujo nome, de quatro caracteres, todos conhecem. Trata-se do elo de ligação, tenebroso e extremamente contagioso, mais perigoso do que o próprio vírus: o medo.

(Valentino Viegas não segue o Acordo Ortográfico de 1990)
(1) Tipo de navio de guerra

 

Valentino Viegas - Goa

 

Reflexao em tempos de pandemia

 

 

Texto de Vasco Pinto Leite (Portugal)


PANDEMIA E PANDEMÓNIO

O Príncipe das Trevas
em contra-Luz

Enfrentou o Deus Omnipotente
e virou mesmo serpente
para convencer o cliente
que o rancor também é celestial,
quando é apenas bestial e viral

O Príncipe das Trevas
na sombra do que seduz

Acena aos seus, os orgulhosos,
não apenas os poderosos,
gananciosos, os egos dolosos,
a todos, com raça só de animal,
o veneno que é transversal e letal

O Príncipe das Trevas
nos escombros da sua luz
Sem tréguas!

Ri-se da estupidez:
na coroa dos vivos a dos mortos introduz;
E da pequenez
a que, na pandemia da altivez,
a coroa de um vírus nos reduz.

...No Planeta
No Planeta vergado a fechar-se,
sentar-se e sentenciar-se...
Sem intuir como prosseguir,
nada pode programar-se,
nem a prazo nem a curto,
com o vírus a evoluir no surto!

Deixou de haver o tempo neste tormento!

Tudo irá colapsar,
a individual ironia, a megalomania, a hipocrisia,
a sociologia, a economia, a global ideologia…
Até a porcaria!
Da morte e da desordem
sairá o norte de uma nova ordem.

Na Barca do Inferno vamos!

E lembramos o nosso Gil Vicente,
que até fazia rir a gente.
Mas, a brincar a brincar,
ele sabia o sério que dizia...
a quem se não arrependia!
Tudo muda num repente!

Agarremos a poética via
que nunca irá ao fundo,
à espera ainda, talvez, da nossa vez,
se tal guia encontrar o mundo.

Derrubámos já inimigo tão fogoso
– E não tão silencioso –
Cremaremos os cornos do Fausto
nos demais fornos de holocausto!


Vasco Pinto Leite - Portugal

 

 

 

 

 

Publicado em 30-03-2020